O dr. Liborio: Mais prestimoso fôra ao cosmos, se o sr. Calisto estanceasse no agro do seu covil a lidar com a fereza dos javalis.
O orador: Não percebi o dito bordalengo: faça favor de explicar-se.
O dr. Liborio: Já disse que não desço.
O orador: Se não desce, cairá de mais alto. Refiro a v. ex.^a a fabula da aguia e do kágado, na linguagem lidima e chan de D. Francisco Manuel de Mello. É o Relogio da Aldeia, que falla no dialogo dos Relogios fallantes: «…Lembra-me agora o que vi succeder a um kágado com uma aguia, lá em certa lagoa da minha aldeia: veiu a aguia, e de repente o levantou nas unhas, não com pequena inveja das rãs, e de outros kágados, que o viam ir subindo, vendo-se elles ficar tão inferiores a seu parceiro. Julgavam por gran fortuna que um animal tão para pouco, fosse assim sublimado á vista de seus eguaes. Quando n'isto, eis que vemos que, retirada a aguia com sua presa a uma serra, não fazia mais que levantar o triste animal, e deixal-o cair nas pedras vivas, até que quebrando-lhe as conchas com que se defendia…» não me lembra bem se D. Francisco Manuel diz que a aguia lhe comeu o miolo.
Se o sybillino collega figura na moralidade d'este conto, offerece-se-me cuidar que não é a aguia.
(Pausa do orador: riso das galerias.)
Sabido, pois, sr. presidente, que as citações historicas fazem repugnancias ao regimento e á ordem, abjuro e exorciso os demonios incubos e succubos da historia, pelo que rogo a v. ex.^a muito rogado que me descoime de desordeiro.
Direi de Quintiliano, se este nome não desconcerta a ordem. Trata-se de oradores, e de estylos viciosos. Diz este mestre dos rethoricos que «ha um natural prazer em escutar qualquer que falla, ainda que seja um pedante, e d'aqui aquelles circulos que a cada hora vemos nas praças á roda dos charlatães» N'esta nossa edade, Quintiliano redivivo diria: «nas praças e nos parlamentos.»
Vozes: Á ordem?
O orador: Pois tambem Quintiliano?!