Bem me quer parecer que rarissimas vezes o admittem aqui a elle!…

O presidente: Lembro ao nobre deputado, que a camara não é aula de rethorica.

O orador: Assim devo presumil-o, vendo que todos a professam com dignidade, exceptuado eu, que me não desdoiro, em confessar que sou o discipulo unico e máo de tantos mestres. Eu direi a v. ex.^a qual eloquencia considero necessaria n'esta casa da nação: é a eloquencia que a nação entenda. A arte de bem fallar, ars béne dicendi, é o estudo da clareza no exprimir a idéa. Os affectos, as galas da linguagem, que lhe tolhem o mostrar-se e dar-se a conhecer dos rudos, não é arte, é tramoya, não é luz, é escuridade. Os meus constituintes mandaram-me aqui fallar das necessidades d'elles em termos taes que por elles v. ex.^a e a camara lh'as conheçam, ponderem, e remedeiem.

Sou da velha clientela de Quintiliano, sr. presidente. Com elle entendo que por de mais se enganam aquelles que alcunham de popular o estylo vicioso e corrupto, qual é o saltitante, o agudo, o inchado, e o pueril, que o mestre denomina proedulce dicendi genus, todo affectação menineira de florinhas, broslados de pechisbeque, recamos de fitas como em bandeirolas de arraial.

Eis-me já de força inclinado á substancia do discurso do sr. dr. Liborio. Primeiro me cumpre declarar que não sei pelo claro a quem me dirijo. Ha dias me regalei de ler o succoso livro de um doutor grande lettrado que escreveu da Reforma das Cadeias. Achei-o lusitanissimo na palavra; mas hebraico na locução. Tem elle de bom e singular que tanto se percebe lendo-o da esquerda para a direita como da direita para a esquerda. Soou-me que o sr. dr. Liborio, amador do que é bom, se identificára com o livro, e aformosentára o seu discurso com muitas louçainhas d'aquelle thesouro.

Não sei, pois, se me debato com o sr. dr. Ayres, se com o sr. dr. Liborio. Se me debato, desavisadamente disse! O discurso não dá péga a debates que não sejam philologicos. Estes não vem aqui de molde. Rethorica, grammatica e logica, se alguem quizer tratal-a n'este predio, entretenha-se lá em baixo no pateo com o porteiro, ou com as viuvas e orphãos, que pedem pão com a logica da desgraça, e com a rethorica das lagrimas: grammatica não sei eu se a fome a respeita: parece-me que não, por que na representação nacional ha famintos que a não exercitam primorosamente. (Murmurio e agitação na direita. Applausos na galeria. Um «bravo» estridulo do desembargador Sarmento. Um cautelleiro dá palmas na galeria popular. A tolice é contagiosa. O presidente sacode a campainha. Restabelece-se o silencio. Calisto Eloy tabaqueia da caixa do radioso abbade de Estevães.)

O presidente: Relembro, já com magoa, ao sr. deputado que se abstenha de divagações alheias do debate.

O orador: De maneira, sr. presidente, que v. ex.^a quer á fina força, subjugar as minhas pobres idéas em aprisoamento, como disse gentilmente o illustre collega!

Pois assim sou esbulhado de um sacratissimo direito? É então certo, como disse o sr. dr. Liborio, que não ha direito em Portugal? V. ex.^a sem o querer, está sendo, na phrase ingrata do illustre deputado, o substituto do anjo S. Miguel! (Riso) Oh! V. ex.^a não será algoz do pensamento, já de si tão intanguido que não é mister matal-o: basta deixal-o morrer… Callar-me-hei, se estou magoando v. ex.^a.

Vozes: Falle! falle!