O orador: O illustre collega referiu o que vem contado no livro do sr. dr. Ayres de Gouveia: que o nosso rei D. Miguel já mancebo, saido da puericia se entretinha a maltratar animaes, chegando um dia a ser encontrado, arrancando as tripas a uma gallinha com um sacarolhas. É pasmoso, sr. presidente, que os dois doutores, protestando pela legitimidade do seu rei, um no livro, outro no discurso, refiram a sanguinaria historia do sacarolhas nos intestinos da deploravel gallinha! Eu suei quando ouvi este canibalismo, suei de afflicção, sr. presidente, figurando-me o desgosto da ave!

Protesto, sr. presidente, protesto contra a suja aleivosia cuspida na sombra de um principe ausente, indefeso e respeitavel como todos os desgraçados. Que historia villã é esta? Quem contou ao sr. dr. Ayres o caso infando do sacarolhas nas tripas da gallinha?! Em que soalheiro de antigos lacaios de Queluz ou Alfeite ouviram os refundidores da justiça estas anedoctas hediondas, e mais torpes no squalôr de recontal-as?

E, depois, sr. presidente, que me diz v. ex.^a e a camara áquelle filho da rainha da Grã-Bretanha, que é um rapinante: uma pêga humana! Que musa de tamancos! uma pêga humana! Que imagem! que allegoria tão ignobil, e extractado do vocabulario da ralé!…

Em desconto d'estas repugnantes noticias, fez-nos o sr. doutor o bom serviço de nos dizer que homem em latim é vir, e mulher é mulier, e que, em alguns casos, homo tambem é homem. Ficamos inteirados e agradecidos. Uma lição de linguagens latinas para nos advertir que a lei não legisla para a mulher!… Teremos ainda de assistir á repetição do concilio em que havemos de averiguar se a mulher é da especie humana? Se os srs. drs. Ayres ou Liborio, alguma vez, dirigirem os negocios judiciarios e ecclesiasticos em Portugal, receio que os legisladores excluam a mulher das penas codificadas, e que os bispos lusitanos as excluam da especie humana!… E peior será se algum d'estes ministros, no intento de punil-as, as classificam nas aves, e nomeadamente nas gallinhas! O horror dos sacarolhas, sr. presidente, não me desaperta o animo!

Porque não ha de ser castigada a mulher por egual com o homem? Resposta séria á pergunta que tresanda a paradoxo: «Porque, no delicto, as faculdades da mulher agitam-se perturbadas; é um periodo de evolução.» A mulher, que mata, por ciume é que mata; a mulher, que propina venenos, por ciume é que despedaça as entranhas da victima. Isto é crime, ao que parece; crime, porém, de faculdades que se agitam perturbadas, e periodo de evolução. Se o termo fosse parlamentar, eu diria farelório!

Quem ha de enristar armas de argumentação contra estes odres de vento?

O que eu melhor entendi, graças á linguagem correntia e pedestre da arenga, foi que o illustre collega, avençado com o sr. dr. Ayres, querem que todo o preso seja de todo barbeado semanalmente, lave o rosto e mãos duas vezes por dia, e tenha o cabello cortado á escovinha, e beba agua com abundancia, e não beba bebidas fermentadas, nem fume.

N'este projecto de lei a pequice corre parelhas com a crueldade. Que o preso lave a cara duas vezes por dia, isso bom é que elle o faça, se tiver a cara suja, mas obrigal-o a lavatorios superfluos, é risivel puerilidade, juizo pouco aceiado que precisa tambem de barrela.

Privar do uso do tabaco o preso que tem o habito de fumar inveterado, é requisito de deshumanidade que sobreleva á pena de prisão perpetua ou degredo por toda a vida. Tirem o cigarro ao preso; mas pendurem logo o padecente, que elle ha de agradecer-lhe o beneficio.

Estes reformadores de cadeias, sr. presidente, parece que tem d'olho apertar mais as cordas que amarram o condemnado á sentença; picar-lhe as veias, e desangral-o gota a gota, na intenção de o regenerar e rehabilitar! Optima rehabilitação! humanissimos legisladores! Querem que o preso se regenere hydropaticamente. Mandam-n'o lavar a cara duas vezes por dia. Agua em abundancia, conclamam os dois doutores. Fazem elles o favor de dar ao preso agua em abundancia; mas descontam n'esta magnanimidade prohibindo-os de fallarem aos companheiros de infortunio, com o formidavel argumento de que sáem das cadeias delineamentos de assaltos, e assassinatos de homens que sabem ricos!…