«Delineamentos de assassinatos»! Que é isto? Assassinato é coisa que me não cheira a idioma de Bernardes e Barros. Seja o que fôr, é coisa horrivel que sáe das cadeias com seus delineamentos, contra homens que os presos sabem ricos. Aqui, sr. presidente, n'este sabem ricos, quem soffre o assassinato é a grammatica. O alticismo d'esta phrase é grego de mais para ouvidos lusitanos.
O que é um preso descomedido, sr. presidente? Dil-o-hei? Vox faucibus haesit!…
É febricitante despedido do leito, que, como setta voada do arco, exaspera em barulho os males de toda a enfermaria. Que se ha de fazer a um patife que é setta voada do arco? Faz-se-lhe lavar a cara terceira vez!
Que desperdicio de poesia para descrever um preso bulhento!
Setta voada do arco! Que infladas necedades assopram estes estylistas de má morte!
Inclinando rasoamento (peço venia para me tambem enriquecer com esta locução do sr. dr. Ayres) inclinando rasoamento a pôr fecho n'este palanfrorio com que dilapido o precioso tempo da camara, sou a dizer, sr. presidente, que a melhor reforma das cadeias será aquella que legislar melhor cama, melhor alimento, e mais christã caridade para o preso. Impugno os systemas de reforma que disparam em accrescentamento de flagelação sobre o encarcerado. Visto que Jesus Christo, ou seus discipulos, nos ensinam como obra de misericordia visitar os presos, conversal-os humanamente, amaciar-lhes pela convivencia a ferocia dos costumes, não venham cá estes civilisadores aventar a soledade aos ferrolhos, o insulamento do preso, aquelle terrivel voe soli! que exacerba o rancor, e os instinctos enfurecidos do delinquente.
Tenho dito, sr. presidente. Não redarguo ao mais do discurso, porque não percebi. Sou um lavrador lá de cima, e não adivinhador de enygmas. Davus sum, non OEdipus.
O orador foi comprimentado por alguns provincianos velhos.
XVIII
*Vae cair o anjo!*