O mestre-escola havia lido, repetidas vezes no Periodico dos Pobres, as palavras autonomia nacional. Falhou-lhe d'esta feita a memoria, lapso que não destoou em nenhumas orelhas, exceptuadas as do boticario, que resmungou:

—Anatomia nacional!

—Que é?!—perguntou ao pharmaceutico um estudante de clerigo.

—Parece-me que é asneira!—respondeu o outro com certa indecisão.

Proseguiu, concluindo, o mestre-escola:

—E, portanto os tributos, tio José do Cruzeiro, são necessarios ao estado como a agua aos milhos. Ora, agora, que ha muito quem bebe o suor do povo, isso ha; e aquelles, que deviam ser bem pagos, são os que menos comem da fazenda nacional. Aqui estou eu, que sou um funccionario indispensavel á patria, e receberia cento e noventa réis por dia, se não trouxesse rebatidos seis recibos a trinta e seis por cento, de modo que venho a receber seis e cinco! Que paiz!… O senhor morgado disse bem: estamos chegados aos tempos dos Dioclecianos e Caligulas!

O auditorio já vacillava em decidir qual dos dois era mais talhado para ir fallar ao rei a Lisboa, se Calisto, se o mestre escola.

III

*O demonio parlamentar descobre o anjo*

Fermentou na mente dos principaes lavradores e parochos das freguezias do circulo eleitoral a idéa de levar ao parlamento o morgado da Agra de Freimas.