Os deputados eleitos até áquelle anno no circulo de Calisto Eloy, eram coisas que os constituintes realmente não tinham enviado ao congresso legislativo. Pela maior parte, os representantes dos mirandenses tinham sido uns rapazes bem fallantes, areopagitas do café Marrare, gente conhecida pela figura desde o botequim até S. Carlos, e affeita a beber na Castalia, quando, para encher a veia, não preferia antes beber da garrafeira do Matta, ou outro que tal ecónomo dos apollineos dons.
Em geral, aquella mocidade esperançosa, eleita por Miranda e outros sertões lusitanos, não sabia topographicamente em que parte demoravam os povos seus comittentes, nem entendia que os aborigenes das serranias tivessem mais necessidades que fazerem-se representar, obrigados pelo regimen da constituição. Se algum influente eleitoral, prelibando as delicias do habito de Christo, obrigára a urna e o senso commum a gemer nos apertos do doloroso parto do paralta lisboeta, o tal influente considerava-se idóneo para escrever ao deputado incumbindo-lhe trabalhar na nomeação d'um vigario chamôrro, ou outra coisa, que foi denominação de bando politico, em tempo que a politica não sabia sequer dar-se nomes decentes. Pois o deputado não respondia á carta do influente, nem o requerente sabia onde procural-o, fóra do Marrare.
Por muitos factos d'esta natureza conspiraram os influentes do circulo de Miranda contra os delegados do governo; e a idéa de eleger o morgado foi recebida entusiasticamente por todos aquelles que o ouviram fallar no adro da egreja, e por quantos houveram noticias da sua parlenda.
O partido, que o mestre-escola ganhára de eloquente assalto, cedeu ao imperio das rasoaveis conveniencias, e conglobou-se na maioria. A verbosidade, porém, do professor não ficou despremiada, sendo nomeado secretario da junta de parochia.
Resistiu Calisto de Barbuda tenazmente ás solicitações dos lavradores, que o procuraram com o mestre-escola á frente, facto que muito honra este desinteresseiro e reportado funccionario. N'este encontro, o professor excedeu o juizo avantajado que elle propriamente fazia de sua vocação oratoria. Mostrou as fauces do abysmo escancaradas para tragarem Portugal, se os sabios e virtuosos não acudissem a salvar a patria moribunda. Calisto Eloy, enternecido até ás lagrimas pela sorte da terra de D. João I, voltou-se para a esposa, e disse, como o agricultor Cincinnatus:
—Aceito o jugo! Assás receio, mulher, que os nossos campos sejam mal cultivados este anno…
Estavam proximas as eleições.
A authoridade, assim que soube da resolução do morgado da Agra, preveniu o governo da inutilidade da lucta. Não obstante, o ministro do reino redobrou instancias e promessas, no intuito de vingar a candidatura de um poeta de Lisboa, mancebo de muitas promessas ao futuro, que tinha escripto revistas de espectaculos, e recitava versos d'elle ao piano, cuja falta ou demasia de syllabas a bulha dos sonoros martellos disfarçava. Redarguiu o administrador do concelho ao governador civil, que pedia sua demissão para não soffrer a inevitavel e desairosa derrota.
Quiz assim mesmo o governo alliciar no circulo algum proprietario, que contraminasse a influencia do candidato legitimista, fazendo-se eleger. Alguns lavradores, menos afferrados á candidatura de Calisto, lembraram á authoridade o professor de instrucção primaria, estropeando phrases dos discursos d'elle, proferidos na botica. O administrador riu-se, e mandou-os bugiar, como parvoinhos que eram.
Por derradeiro, o governador civil fez saber ao ministerio que os povos de Vimioso, Alcanissas e Miranda se haviam levantado com selvagem independencia e tintam fugido com a urna para os desfiladeiros das suas serras. Pelo conseguinte, não pôde ser proposto o poeta, que beliscado na sua vaidade assanhou-se contra o governo, escrevendo umas feras objurgatorias, as quaes, se tivessem grammatica á proporção do fel, o governo havia de pôr as mãos na cabeça e demittir-se.