Calisto, conforme ao antigo uso, levou um livro para a cabeceira do leito. Escolheu poeta, e saiu-lhe o seu já tão querido outr'ora Sá de Miranda. Abriu ao acaso, e saiu-lhe n'uma pagina d'Os Estrangeiros esta maxima: Duas sortes de homens ha no mundo que se possam servir: ou muito parvos ou muito namorados, e ainda os namorados tem grande vantagem.
A meu vêr, o espirito d'aquelle honrado doutor, que tão santo marido fôra de Briolanja de Azevedo, até de saudades d'ella se deixar morrer, alli lhe viera, áquella hora, relembrar occasionalmente e a ponto uma de suas maximas, como em paga do affectuoso respeito com que Barbuda o lia e inculcava á mocidade depravada.
Calisto Eloy pôde ainda admirar o lidimo portuguez da maxima, e adormeceu.
XXIII
*Tenta o seu anjo da guarda salval-o mediante uma carta da esposa*
Calisto dormiu mal.
As alvoradas de um dia feliz são mais temporãs que as da estrella d'alva. O coração acorda primeiro que os passaros. O amor diz o seu fiat lux primeiro que Deus. Estas tres sentenças, a meu vêr, são mais intelligiveis que o contentamento do morgado da Agra, ao levantar-se da cama em que dormitára algumas escassas horas alvoroçadas.
O desastre de Campolide quebrantaria um homem qualquer que viesse a cumprir n'este mundo os vulgares destinos da maxima parte dos mortaes. Individuos notaveis já sairam scepticos e bravos cynicos de aperturas menos dilacerantes. Os annaes ensanguentados da humanidade estão cheios de facinoras, empuxados ao crime pela ingratidão injuriosa de mulheres muito amadas e perversissimas. Superabundam casos de embaçadellas analogas á de Calisto: d'estes lances obscuros tem saido aparvalhada muita gente que era escorreita, e que se volve daninha á republica. São uns homens que vos namoram as criadas, se vos não podem requestar a familia; uns vampiros de sangue femeal, que trazem o demonio da vingança no corpo, demonio meridiano e nocturno, que bebe lagrimas de mulher, em quanto os possessos d'elle bebem cognac e absyntho. Um homem d'estes, encostado a frade de esquina, é o leão que espreita da sua caverna lybica a antilopa descuidosa. Officiala de modista, que se espaneja nas verduras do jardim da Estrella, como alvéola nas praias borrifadas de espuma, se o anjo da guarda a desampara um quarto de hora, tem os seus dias contados. O scelerado, com o simples auxilio de um gallego, em que por vezes se ingere e chafurda o confidente de Fausto, arranca da fronte da alegre palmilhadeira de botinhas a grinalda de laranjeira em botão, que esperava a sua primavera, o seu abrir-se e rescender, no primeiro dia nupcial. Que tristeza! E ninguem falla d'isto senão eu, porque me cumpre fazer o elogio de Calisto Eloy, que não fez cousa nenhuma d'aquellas.
Assim que se ergueu cuidou em aformosear a saleta, cuja decoração era menos de modesta. Saiu açodado ao armazem dos mais elegantes estofos, e comprou alfaias magnificas. O homem pasmava dos nomes d'aquelles objectos, nenhum dos quaes soava portuguezmente.
—Porque chamam a isto chaise-longue?—perguntava Calisto Eloy ao engenhoso Margoteau.