—As paixões, minha sr.^a D. Thomazia…—obtemperou o morgado, e lambeu os beiços molhados da libação de um vinho nervoso d'aquella garrafeira já mencionada. E proseguiu.—As paixões do amor… Nem os grandes sabios nem os grandes santos se exemptaram d'ellas. Somos todos de quebradiço barro; somos uns pucarinhos de Extremoz nas mãos infantis das mulheres. O tributo é fatal: quem o não pagou aos vinte annos, ha de pagal-o aos quarenta, e mais tarde, quando Deus quer… Deus ou o demonio, que eu não sei ao justo quem fiscalisa estes malaventurados successos de amor, que a historia conta e a humanidade experimenta cada dia…

—É um gosto ouvil-o!—interrompeu D. Thomazia—Bem no disse aquella senhora: v. ex.^a é um genio, e falla de modo que se mette no coração da gente. Quer que lhe diga a verdade, sr. Barbuda? Foi bom que v. ex.^a me encontrasse n'esta edade. Se eu fosse moça e bonita, como dizem que fui, um homem como v. ex.^a havia de me dar cuidados.

—Ora, minha sr.^a D. Thomazia, isso é lisonja e favor. Eu já não estou tambem na edade de tocar corações, nem os meus habitos vão muito para ahi!

—Edade!—accudiu a viuva do tenente—v. ex.^a póde dizer que tem trinta e cinco annos, que ninguem lh'o duvida. É mania agora dos rapazes quererem á fina força passar por velhos. Pergunte quem quizer á visinha do primeiro andar se o acha velho. Está-me sempre a perguntar se v. ex.^a me diz d'ella alguma coisa… Conhece-a?

—Bem sei: uma mocetona cheia, com umas fitas escarlates na cabeça…
Não é má…

—E sabe v. ex.^a que mais? Eu vou apostar que esta senhora, que veiu cá, traz coisa no coração, que a obrigou. Assim uma senhora nova, sosinha, tão encantadora!… Aquillo, em quanto a mim, é que já o ouviu no parlamento, e apaixonou-se. Ha muitos casos assim cá em Lisboa de senhoras apaixonadas pelos homens de talento. O talento é uma coisa muito bonita! Meu marido casou comigo quando era sargento do treze de infanteria, e andava nos estudos. Era feio, e ao principio tinha-lhe medo; mas assim que elle me mandou um acrostico… V. ex.^a sabe fazer acrosticos?

—Ainda não me puz a isso.

—Pois como eu me chamo Thomazia Leonor e tenho quatorze letras fez-me elle um soneto que me deu volta á cabeça, e tamanho incendio me tomou o peito, que o amei até á morte, e ainda agora, ficando eu viuva aos trinta e nove annos, fui, sou e serei fiel á sua memoria.

N'este ponto, D. Thomazia, ferida n'alma pelo acrostico memorando, chorou.

Calisto represou-lhe os prantos com algumas maximas consoladoras sobre a morte, e bocejou, já por que eram tres horas e meia da manhã, já por que o dialogo descaira nos aborrimentos de uma palestra em dia de fieis defuntos. D. Thomazia começou a espirrar, por que se não agasalhára bastantemente, e assim se apartaram estas duas pessoas, que uma hora de expansão aproximara.