Não te enfado mais. Responde sem demora, que estou muito consternada.

Tua mulher que muito te quer Theodora

Calisto Eloy dobrou a carta vagarosamente, e disse de si para comsigo:

—Pobre mulher! já me sinto enfadado com as tuas cartas… Já as tuas sinceras babozeiras me incommodam e enjoam!… Agora vejo que tu eras quasi nada na minha vida. Não sei em que logar do meu coração estiveste, porque não dou pela falta, nem sequer a saudade me chama para ti!… Os contentamentos da minha vida passada deu-m'os o estudo. O coração dormia como os ventos da tempestade no bojo da nuvem negra, que serenamente se vae acastellando no horisonte. Eil-a começa a desfechar agora relampagos e coriscos. Mas o viver é isto! eu quero e preciso amar. Levam-me os impetos de uma vontade juvenil, e «a vontade é vida» como diz o Jorge Ferreira na Eufrozina. Amor! amor! que me caldeaste e retemperaste o peito nas tuas forjas! emborca-me os teus nectareos phyltros, embriaga-me este coração, que já não póde respirar de afogado nos seus ardores!…

Disse, e tirou de uma charuteira de canudos de prata um havano, cujas ondulações de fumo lhe perfumaram o quarto e subtilisaram a phantasia.

Depois, com forçado tregeito, estendeu o braço sobre uma banqueta de charão, em que assentava um tinteiro de crystal, e escreveu á esposa, n'este theor:

«Prima Theodora e estimada esposa.

Passo bem de saude; mas saudoso de ti. Não te tenho escripto, porque os negocios do estado me levam todo o tempo. Mandei vir dinheiro de Bragança, para emprezas de grande vantagem. Não te dê cuidado os meus gastos, que somos muito ricos, e não temos filhos. Até aqui vivemos miseravelmente, quando eu voltar a casa, quero que mudes de vida, prima. Hei de reformar o nosso palacete de Miranda, e viveremos como nossos avós, com representação e commodidades proprias d'este tempo. É preciso gosarmos a vida, que é curta. Não andes por lá a medir grão nem a tratar das aves. Entrega isso ás criadas, e faz-te a senhora e fidalga que és.

Em quanto ao mestre-escola, e á sua exigencia do habito de Christo, devo
dizer-te que o mestre-escola é um asno. Não respondo a taes cartas.
Manda-o á tabua, e não admittas similhante palerma á tua conversação.
Lembra-te que és uma Figueirôa, casada com um Barbuda.

Se receberes ordem minha, em mão de algum negociante de Bragança, paga o dinheiro que disser a ordem.