Não te lembres de infidelidades do teu Calisto. O primo Gamboa é um patarata sem juizo, que te diz essas coisas para te disfructar.
Quando vier o recoveiro de Miranda, manda-me presunto, salpicões, e algumas ancoretas do vinho da Ribeira.
Teu muito affecto e extremoso
Calisto.»
XXIV
*A mulher fatal*
Ás tres horas em ponto, parou uma sege de praça, á porta de Calisto Eloy de Silos. O bolieiro subiu ao terceiro andar, perguntando se s. ex.^a estava em casa. O morgado arregaçou com o pente as mechas do cabello, que lhe escondiam porção das escampadas fontes, apertou os cordões do rob-de-chambre na volta mais airosa da cintura, e desceu ao pateo a receber a visita.
Saltou da sege, amparando-se levemente na mão de Calisto, uma mulher d'aquellas que Lucifer fazia, quando assaltava no deserto a pudicicia dos Antonios, dos Paulos, dos Pacomios e Hilarioens.
Era alta e pallida: rutilavam-lhe os olhos como lustrosos azeviches á flor de um busto de marfim, algum tanto emaciado. Calisto machinalmente levou a mão ao coração: traspassara-lh'o uma azagaia electrica.
—É muita delicadeza da parte de v. ex.^a, disse Iphigenia.
—Oh, minha senhora!… tartamudeou o morgado da Agra, offerecendo-lhe o braço.