—Porque não ha de sêl-o?—accudiu D. Iphigenia, interessada na commovente historia.
—Não sei o que é felicidade. Tenho quarenta e quatro annos, e ainda não vi uma aurora benigna. Muitos annos procurei aturdir-me no estudo. Roía-me o abutre de um desejo vago; mas eu, que me segregára do mundo para o escondrijo da minha bibliotheca, se ás vezes passava de relance entre mulheres, que poderiam espertar-me paixões, fitava n'ellas como idiota que perdeu a memoria da terra natal, e se quêda espantado das coisas que ligeiramente lhe espertam a lembrança. Se alguma vez me surpresou algum sentimento estranho de affecto, podia tanto comigo a consciencia da sujeição ao dever, que o mesmo era cerrar os ouvidos da alma ao quer que era, entidade dupla, que me segredava delicias de uma vida incognita. Estas breves e poucas pelejas, com o discorrer dos annos, cessaram. Eu tinha consummado a paralysia do coração, e chamado sobre mim todos os habitos da velhice. A minha vinda para Lisboa foi o resurgimento da vida, sepultada antes de haver consciencia de si. Achei-me entre homens, aquecidos á luz d'este seculo. Na athmosphera d'esta cidade ha perfumes que vaporam do coração das esposas amadas, das amantes queridas, das pombas ideaes, que volteam á volta dos espiritos anhelantes de cada homem. Pulou-me como arfar de vulcões a vida no peito. Vi-me no passado, e tive pesar, e saudade, e pejo da minha mocidade… Onde vão estas candidas revelações do meu pobre coração? Não na enfadam porventura minha senhora?
—Interessam-me e commovem-me—disse com affectuosa sympathia a brazileira—Vae dizer-me que se apaixonou?
—Tive um delirio—respondeu o morgado, compassando as palavras em tom muito do intimo—Um delirio, sonho de infeliz, que se desperta a arrancar do seio uma frecha. Foi o estremecer do terremoto, que alarma terrores, e se aquieta. Medi a profundeza da minha alma, e pude vêr que eu seria capaz de um crime… E, todavia, se algum seio de mulher podesse comprehender quanta pureza sanctificava os meus affectos!… Se alguem visse a aguia que por tão alto avoeja, sem descer ás searas a roubar um grão!… Fallo a um espirito elevado, que tem obrigação de me comprehender… Agora, senhora, perdão! Eu disse tudo: confessei-me diante de um anjo de Deus. Mostrei-lhe o desamparo d'este meu viver. E, se estas lagrimas alguma coisa significam, é uma supplica de amizade. Eu vejo ahi uma formosura que dobra a alma, e ouso procurar o compadecimento de uma amiga, porque sei agora que ha mulheres, diante das quaes um homem precisa chorar.
Calou-se o morgado. Iphigenia encarava n'elle com certo assombro e estranheza de pessoa que não póde, nem quer conhecer dos sentimentos que a alvoroçam. O inesperado remate d'este dialogo figurou-se-lhe a ella a passagem de um romance, que se não presa de muito verosimil. Porém, como quer que a viuva do general Ponce de Leão fosse grandemente lida em novellas francezas, o caso não lhe pareceu tão extraordinario como ao leitor e a mim, quando m'o referiram.
Passados momentos, Iphigenia, contemplando, sem as vêr, umas figuras chinezas do seu leque, disse:
—De maneira que esta apparição imprevista de uma mulher desafortunada, se deu logar á expansão, tambem foi causa a uma dôr de v. ex.^a!…
Calisto entrelaçou os dedos em postura supplicante, e exclamou:
—Chovam-lhe os archanjos do Senhor quantas felicidades a bem-aventurança encerra! Nunca uma nuvem escura lhe ennegreça os seus sonhos de felicidade! Multipliquem-se em alegrias eternas para v. ex.^a, estes instantes de ventura que me deu, minha misericordiosa amiga!
Nenhuma paixão subita estalou ainda com estrondos d'este tamanho. A gente comprehende como estas coisas acontecem; casos se podem ter dado comnosco da mesma natureza, mas o que nós não fizemos nunca, se o amor nos assaltou de improviso, foi fallar assim, romper tão depressa em vehemencias de enthusiasmo. Nós, homens creados mais ou menos por salas, affeitos a subordinar o sentimento ás praticas da civilidade, desafogâmos em extasis e suspiros, contemplamos embellezados a mulher que nos endoudece, respondemos com frioleiras gagas a uma pergunta, que nos ella faz com toda a presença do seu espirito. Toda a lastima é pouca para os ridiculissimos tregeitos que fazemos então.