Ora, isto é bom que assim continue a ser. Esse quarto de hora de suprema realeza das mulheres é tudo que ellas tem, e pouco mais. Esse espaço de fascinação, que nos embrutece, é a divinisação d'ellas. Ás pobresinhas, quando o tempo as apêa dos altares, e os maridos convertem a prata dos thuribulos em caixas de rapé, fica-lhes sempre a memoria consolativa d'aquelle quarto de hora.
Tornando ao ponto, queria eu dizer, que o morgado da Agra de Freimas não fallaria d'aquelle modo, nem tão do intimo da alma apaixonada, se tivesse experiencia dos usos da boa sociedade. Os bons usos ordenam que o homem se declare á mulher que ama, depois que as impressões repetidas de vêl-a e ouvil-a bajam desfalcado o vigor do sentimento. A praxe requer primeiro o extasis, depois as semsaborias tratamudas, ultimamente a declaração, com intervalo de tres mezes ao extasis.
XXV
*Perdido!*
Fecharam-se as camaras.
Calisto Eloy desamparára a sua cadeira do parlamento, quinze dias antes de encerrada a legislatura. Era opinião geral que o deputado de Miranda, desgostoso do governo e da opposição, se retirara, convicto da fraqueza de seus hombros contra o colosso, que tombava sobre o desangrado Portugal.
As gazetas realistas indigitavam Calisto como exemplo de peito illustre e invulneravel no marnel de febres podres em que ardiam e patinhavam miseraveis ambiciosos. Deram-lhe, á conta d'isso, varios nomes gregos e romanos, que lhe ajustavam tão a primor, como a verdade historica á legenda das fabulosas virtudes de Grecia e Roma. A opposição liberal lamentava que as medidas obnoxias e hybridas do governo afugentassem da camara um deputado como Benevides de Barbuda, a cuja alta intelligencia e virtude repugnavam os desatinos da camarilha. Calisto Eloy lia estas coisas nas gazetas, e dizia entre si:
—Como hei de eu crer no que vejo escripto a respeito dos outros!…
Ao tempo que estes juizos dos publicistas eram impressos e mandados á posteridade, estava o morgado da Agra no hotel de Cíntra, cuidando em alugar e trastejar com elegancia britannica uma casa, entre moitas de arbustos, a qual parecia feita para a rainha das flores ou para repousar-se em fresca sesta a aurora.
Decoradas as paredes interiores, cobertos de oleado os pavimentos, e afestoadas as paredes exteriormente com lilazes e jasmineiros, baunilhas e eras de verdejante urdidura, entrou n'aquella casa D. Iphigenia, conduzida pelo braço de Calisto, e seguida de uma senhora de porte honesto e recommendavel, que vinha a ser aquella D. Thomazia Leonor, em honra de quem as musas do defuncto tenente suspiraram acrosticos. Mais atraz, iam duas criadas, e um servo fardado de casimira côr de pombo, com gola e canhões escarlates, golpeados de listas amarellas, distinctivos da libré dos Ponces de Leão de Hespanha.