Iphigenia foi surprehendida pelo seu gabinete de estudo, decorado de graciosas estantes e étagères, cheias de livros luxuosamente encadernados, acondicionados com tão elegante symetria que induziam muito mais á contemplação que á leitura. O restante d'aquella vivenda de fadas era por egual magnifico, em gosto e riqueza.
Calisto deu posse da casa a sua prima, e retirou-se ao hotel, para que ella sestiasse e se recobrasse da fadiga e calma da jornada.
Ao descair da tarde, o morgado foi bater á porta d'aquelle eden.
Iphigenia saiu-lhe ao encontro com um ramilhete de flores, e disse-lhe:
—Aqui tem as primicias do seu jardim, primo.
Calisto aspirou o aroma das flores, osculou a mão que lh'as offerecera, e murmurou:
—Fechem-se os meus olhos, quando eu as poder vêr sem lagrimas de gratidão.
—Lagrimas… para que?—Volveu ella com meiguice.—As lagrimas deixemol-as aos infelizes. O primo não comparte do meu contentamento? Não vê que me realisou o meu sonho com tamanho excesso de delicias, que eu não me atrevera, sequer, a imaginar? Sinto-me ditosa!… Ainda não quiz pensar um instante se estas alegrias podem descair em magoas… Estou sonhando, e não quero que me acordem. Seria crueldade dizerem-me que ha viboras debaixo d'estas alcatifas de flores. Isto deve ser paraizo sem culpa, ignorancia santa do porvir sem pomo de arvore da sciencia que m'o descubra. Não é assim?…
—Que fallar o seu prima!—disse com vehemente, mas suffocado amor, o morgado—Que melodias!… Eu não sei responder-lhe… Apenas sei escutal-a. N'uma composição dramatica de Sá de Miranda, chamada Vilhalpandos, ha um epitheto dado a uma mulher, o qual eu não podia perceber, sem que o baptismo das doces lagrimas me chamassem o coração á vida.
—Sempre lagrimas!…—atalhou Iphigenia—Então que é que diz o Sá de
Miranda?
—Na bocca de um amante, que encontra a sua amada, põe estas palavras: «mulher santissima». Quem disse mais n'este mundo? os seus poetas francezes disseram coisa mais peregrina?… E n'esta mesma scena, poucas linhas abaixo, diz o amante a Fausta: «Sabes que sonho?». Que immenso amor devia de ser o de Antonioto, que assim perguntava á vida de sua alma: «Sabes que sonho?»