—Isso é que era bom, sr. Braz!—exclamou Theodora, limpando as lagrimas ao avental de chita.

—Eu estou ainda com a idéa ferrada do habito de Christo. É cá uma birra com o boticario, que disse ao cirurgião que eu havia de ser cavalleiro do habito quando elle fosse papa. O sr. morgado não me responde ás cartas: é um ingrato d'aquella casta; mas, emfim, os favores que lhe fiz na eleição não me arrependo de lh'os fazer… Emfim, fidalga, se v. ex.^a quer, eu vou ter-me com o sr. morgado, e póde ser que venha com elle para cima e com o habito.

—Está dito!—clamou Theodora—Vocemecê vae, e eu faço-lhe as despezas.

—Isso lá como v. ex.^a quizer… Eu, a fallar verdade, não estou muito indinheirado, e alguns vintens que tenho todos me hão de ser precisos para pagar os direitos da mercê.

* * * * *

Ahi vem Braz Lobato, caminho de Lisboa.

XXVIII

*Ingratidão de um deputado*

Braz Lobato, antigo sargento de milicias, e antigo borra de frades franciscanos, era legitimo homem para farejar Calisto em Lisboa. Cuidou elle que encontraria o marido de D. Theodora de Figueirôa nos logares mais celebrados e admirados da capital, segundo é fama nas provincias. Como o não encontrasse na Memoria do Terreiro do Paço, foi procural-o ao Aqueducto das Aguas-Livres. Depois de baldadas estas pesquisas, outro qualquer sujeito desanimaria; Braz Lobato, porém, resolveu ir ao Paço das Necessidades em busca do seu patricio, porque, no seu modo de julgar as correlações dos altos poderes do estado, Calisto Eloy devia frequentar regularmente a casa real.

Perguntou o mestre-escola affoitamente á sentinella do paço se o representante nacional, morgado da Agra estava em palacio. A sentinella mandou-o entrar, e que perguntasse ao commandante da guarda. O commandante mandou-o a um fidalgo que vinha descendo, e o fidalgo interrogado mandou-o á fava.