Com o quê, Braz Lobato saiu á rua, e perguntou a um aguadeiro se alli não morava o rei. E, como soubesse que a familia real estava em Cintra, conjecturou que os deputados, e particularmente Calisto, deviam estar em Cintra para de lá governarem a monarchia.

Chegou o mestre-escola a Cintra, e descavalgou do jumento portador, á porta do palacio. Fez as suas perguntas á sentinella com aquelle ar marcial que lhe ficou das milicias. Esperou a vinda de um camarista, velho fidalgo attencioso, que sorriu da supposição do provinciano, e lhe disse que o deputado Calisto Eloy residia no hotel do Victor.

Chegado ao hotel, á hora mais de passeio, por fim da tarde, não encontrou Calisto, e foi demandal-o nos logares mais frequentados. Abeirou-se de um grupo de sujeitos, que inculcavam gente grave, e perguntou por Calisto Eloy de Silos Benevides de Barbuda.

Esta pergunta coincidiu com o caso de estarem aquelles individuos aventando hypotheses sobre a formosa solitaria, cujo ninho de folhas e flores apenas Calisto de Barbuda frequentava.

O ar provinciano de Braz fez crêr aos curiosos que o homem, sendo patricio de Calisto, poderia esclarecel-os ácerca da creatura mysteriosa.

—D'onde conhece vocemecê o sr. Barbuda?—perguntou um.

—Conheço-o desde menino, que é da minha terra, e eu sou o professor de instrucção primaria lá do concelho do sr. morgado da Agra de Freimas.

—Então, volveu outro, ha de saber se a senhora que está com elle em
Cintra é parenta d'elle, ou mulher ou amante.

—A mulher do sr. morgado ficou em casa; parenta não me consta que elle tenha cá nenhuma. Isso ha de ser negocio de contrabando, em quanto a mim. Fazem favor vv. s.^as de me ensinarem o caminho da casa onde elle está?

Conduzido á espessa cancella de ferro, que estremava o jardim do caminho publico, Braz Lobato puchou a campainha. Fallou lhe um criado de libré, o qual, perguntado se o sr. morgado estava em casa, respondeu que n'aquella casa morava a viuva do general Ponce de Leão.