Na carta XXIII, esta mirifica epistolographa mette a riso a nossa pronuncia nacional, os sons nasaes, as desinencias em oês e em aô, que nos ficaram da lingua galoga, e se pronunciam ouenche, anhon «com um accento «violento de nariz que só bem póde imitar-se pegando n'este appendice com a mão toda para bem proferir o portugaison». Sim, elle é preciso pegar no appendice para bem pronunciar o portugaison.
Vence-me o tedio; mas não me punge o remorso de ter lido 415 paginas. Tenho, porém, vergonha de que um ou outro portuguez, desnacionalisado por despeitos pessoaes e politicos, se compraza de vêr os seus conterraneos enxovalhados pela snr.^a Rattazzi, cuja maledicencia é notoriamente europêa. O seu renome de desbragada sem-ceremonia ganhou-o em Italia e Paris a ponto de lhe imputarem as brochuras crapulosas do infame bandido Vésinier, um corcunda petroleiro que espingardearam em 71. Elle publicára na Belgica o Mariage d'une espagnole com as iniciaes M. de S., em que muitos decifraram Marie de Solms (Les membres de la commune, par Paul Dehon, pag. 241). Outros davam quinhão na torpeza a Sch[oe]lcher (Histoire de la revolution de 1870-71, por Claretie). Era uma calumnia que a não pungiu grandemente; um dia, porém, o despejado amanuense de E. Sue fez confissão publica e vaidosa de ter vendido esses farrapos de baixo alcouce aos editores belgas.
A senhora princeza, se em vez de puffs usasse calças e voltasse a Portugal, de certo acharia quem lhe désse umas. Tem por si o arnez da fragilidade, posto que as senhoras um pouco durazias, e por isso menos quebradiças, devem ater-se menos á irresponsabilidade das qualidades vidrentas. Em todo o caso, a gente admira-se, porque esta especie de extravagancia não é vulgar, e só póde perdoar-se ao talento que a snr.^a Rattazi não professa. Tenha paciencia. É uma patarata, a ragged woman, com uns quindins de mauvais aloi, trescalando a boudoir-Lenclos, com umas guinadas de verve, barrufadas de champagne frappé. De resto, é uma princeza que nos faz lembrar, quanto aos seus diplomas principescos, a rainha Jacintha de negra memoria, e quanto aos seus morgadios realengos não nos parece mais donataria que a illustre senhora da ilha das Gallinhas. Em conclusão: o seu livro não é cano de escorrencias muito nauseabundas, nem é canal de noticias uteis, tirante a dos hoteis infamados de persevejos; não é pois cano, nem canal; mas é canudo, porque custa sete tostões; e—vá de calão—como troça e bexiga, é caro.
Notas:
[1] La verité sur M. Rattazzi, par l'Inconnu.
[2] Quem houver lido as Memorias de Casa nova, um patife no genero Lovelace peorado, tem comprehendido a crueza da comparação.
End of Project Gutenberg's A senhora Rattazzi, by Camilo Castelo Branco