E a proposito de macaco:
Tendo esta dama escripto lisonjeiras cousas da gentileza e bonito feitio dos homens portuguezes, exceptuou caprichosamente um criado do Hotel Mondego, o José Macaque. Diz que elle tem uma fealdade socratica. Eu não affirmo que José Macaco seja um galan com o perfil de Bathylo de Samos nem os tres quartos do Cupido de Corregio. Anacreonte de certo lhe não toucaria as louras madeixas de pampanos e rosas de Teos, nem me persuado que Sodoma ardesse por causa d'elle ou de mim. Assim mesmo, sem algum motivo estranho á plastica, a princeza Maria Letizia, indisposta com José Macaco, não lhe perpetuaria no seu livro como em um bronze de Esopo, a fealdade. Devia de haver uma causal esthetica para injuria tão desproporcionada com as culpas arguidas a José Macaco. Sua alteza não o baldeava á zombaria dos seculos porvindouros pelo delicto de lhe não servir mayonnaise de lagosta à la gele, nem mexilhões á provençal. Indaguei, por intermedio d'um meu amigo em Coimbra, quaes as causas ingentes dos odios assanhados pela Discordia ignivoma, como diria Homero, entre Macaco e Princeza. Tentaria elle como o hediondo Thersites da Iliada arrancar com suspiros absorventes os olhos meigos da nova Pantasilea? Trato de averiguar. Se a resposta não vier a tempo, dar-se-ha em appendice supplementar.
Trata com amoravel equidade o snr. G. Junqiero. Acha-lhe bellas cousas no seu don Jooâ, e que realça no estylo menineiro, enfantin. O snr. Junqueiro, se bacorejasse este obsequio, não mettia na sua Viagem á roda da Parvonia uma Princeza Ratazana, «em toilette myrabolante, cheia de pedrarias e plumas». A princeza Ratazana da farça dá um jantar a lyricos e satanicos, e canta:
É um paiz singular
A patria dos malmequeres!
Póde-se dar um jantar
Ficando os mesmos talheres.
Mas os convivas, a quatro libras por cabeça,—o snr. Guerra, gratis—põem-se nas flautas, e ella abysma-se no buraco do ponto. A troça está impressa. Guerra Junqueiro vingou A. A. Teixeira de Vasconcellos.
Este escriptor, prodigo de gabos e cortezias aos seus collegas, houve-se cavalheirescamente com a princeza. Fez folhetim heraldico da sua raça corsa, do espirito e dos livros que eu apenas conhecia de lh'os vêr citados no Dictionnaire de l'argot parisien, por Lorédan Larchey, Paris, 1872. Ella é authoridade em giria. Antonio Augusto achava-lhe talento, e ia jantar com ella. O escriptor morreu; e a snr.^a Rattazzi celebra d'est'arte a memoria do seu panegyrista e hospede:
«Antonio-Augusto Texeiro de Vasconcellos. O Casa nova portuguez[2]. Seria de mais chamar-lhe celebre, mas notavel por muitas distincções, sim. A primeira pelos grossos escandalos que datam já de Coimbra, onde estudava; depois por grandes farçolices de que uns riam, e outros choravam. Por algumas foi asperamente castigado. O que elle podia melhor escrever eram as suas memorias; com certeza, tinha com que alvoroçar a curiosidade publica. Pensaria n'isso? É provavel que sim, mas faltou-lhe o tempo. Como quer que fosse, essas memorias só poderiam publicar-se depois d'elle morto; se as publicasse em vida, correria o perigo de o espatifarem». É uma princeza a escrever d'um homem fallecido que a inculcára litterata distincta no Jornal da Noite, mentindo á gente por um excesso de cavalheirismo fidalgo que o desculpa, e mais relevante faz resaltar a ingratidão da leitora do Casa nova.
Crueza e indignidade que não desafinam das tradições corsas da sua familia; mas que será difficil encontrarem-se em uma senhora de la haute vie, uma irlandeza de mais a mais, uma Wyse, fina flôr fanada da Gentry.
A snr.^a Maria Letizia esteve no Porto, onde «viu o lindo riacho, Rio de Viela que atravessa diversas ruas»; conversou com a snr.^a Alveolos, ingleza gorda que, por signal, a não percebeu. Conta-nos—digno Plutarcho—a biographia da estalajadeira do Francfort, e viu a confraria dos Pénitents rouges a descer da collina para o rio, e parar com tochas accesas á porta d'uma casa mourisca com vidraças coloridas, e paredes esmaltadas de adobes azues. Que diabo de visão! O Hoffmann não veria isto no Porto sem beber muito de 1815. Os penitentes vermelhos!
Tambem esteve em Cedeifata e no palacio de crystal, acompanhada par le savant docteur Ricardo Costa. É admiravel como ella, n'um lance d'olhos, apanhou as linhas intellectuaes e scientificas do senhor doutor Ricardo Costa! Quantas pessoas andam duzias de annos á volta d'um sabio sem o penetrar!