Não ha feminilidades que se respeitem desde que a mulher se masculinisa, e, como escriptora virago, salta as fronteiras do decoro, sofraldando as espumas das rendas até á altura da liga azul-ferrête.

Mau! começo a ser muito serio e metaphorico. Por aqui me fecho.

N'esta edição augmentam as incorrecções á proporção das paginas. Algumas vão muito alagartadas de francezias para que sua alteza perceba pouco que seja do pamphleto.

Se um periodo serio não destoasse d'esta brincadeira, eu lembraria aos meus conterraneos que o repellirem patrioticamente as zombarias dos insultadores estrangeiros lhes é mais airoso do que esse palavriado de rimas bombasticas e fofas com que suppuram em golfadas annuaes o seu patriotismo no Primeiro de dezembro.

Não obstante o silencio dos vates encartados na hymnologia patriotica, a maioria da imprensa antecipou-se-me no vigoroso desforço da justiça, e nomeadamente o snr. Urbano de Castro, um escriptor moderno, com os dons do estylo e da graça que seduzem velhos impertinentes e glaciaes como eu e outros infelizes da minha idade. A favor da snr.^a Rattazzi tem sahido uns poucos periodicos faiantes, sargêtas por onde tresandam os seus fedores as fezes litterarias de Lisboa. São os orgãos da ralé sarrafaçal, uns madraços desencadernados que vivem na gandaia politica, engenhando republicas carnavalescas. É n'esses periodicos de mixordias plebêas até ao asco que o snr. Theophilo Braga se esconde a escrever, como em parede de latrina, uns desabafos pelintras de quem não acha na imprensa séria fonticulos por onde suppurar o pus. A princeza póde contar com este panegyrista.

A SENHORA RATTAZZI

Depois de estudar os portuguezes e as portuguezas com frequentes visitas celebradas por menus economicos e risos de ironia larga, a snr.^a Rattazzi concebeu das suas impressões viris e masculas um livro que deu á luz em janeiro, e denominou Portugal à vol d'oiseau. Portugais et portugaises.

Eu, creado no velho noticiario, tendo de annunciar o producto d'uma dama dado á luz, antes quizera, em vez d'um livro bom, annunciar um menino robusto. Acho muito mais sympathica a feminilidade das mães pallidas, com olheiras, emaciadas, que aconchegam dos seios exuberantes a criancinha rosada, recem-nascida. Não me commove nem alvoroça o espectaculo d'uma authora que se remira e envaidece na brochura que deu á luz, obra entre cinco e sete tostões—740 reis com estampilha. Por isso, antes quero noticiar um menino robusto que um oitavo compacto.

Principia a snr.^a Rattazzi por declarar com raro entono que conta e pinta o que viu sem deferencias pessoaes nem preoccupações do que a seu respeito se possa dizer ou pensar. Bom é isso. O menospreço que a escriptora liberalisa á opinião publica portugueza permitte á critica o dispensar-se de grandes melindres. Á vontade.

Se alguém me arguir de bastante descosido no exame do livro, queira lêl-o com paciente pachorra, e verá que eu bispontei sobre os alinhavos atrapalhados da senhora princeza. Se me acharem um pouco em mangas de camisa, façam-me o favor de vêr que a shocking irlandeza nos visita de penteador de rendas transparentes e chinelinha de chinchilla.