Calumnía, apenas começa, affirmando, contra o caracter d'esta boa gente portugueza, que D. Pedro V, e os infantes D. Luiz, D. João e D. Augusto foram atacados do typho-arsenical—envenenados. Uns morreram. D. Augusto ficou atarantado, mas com graça—uma timidez non dépourvue de charme; e D. Luiz, esse, teve de la chance:—que duas vezes fôra preservado da sorte de Britannicus. Exceptuados os gremios palurdios d'algumas boticas de provincia, ninguem hoje repete semelhantes atoardas. Quando quizeram por odio politico enlamear a reputação immaculada d'um duque, desembéstaram-lhe o venabulo ao rosto sereno. O aleive cahiu então, e levantou-se agora na indiscreta obra mexeriqueira da snr.^a Rattazzi.
Quando a morte fulminou, a curtos intervallos, na Italia, duas rainhas da Sardenha e o duque de Genova, madame Marie de Solms, em versos por signal muito ordinarios, insinuou que o fanatismo tôrvo dos padres tinha brandido nas trevas a cruz á feição de gladio. Na Italia era o clero, aqui foi o veneno dos Medicis. Acha que os principes não podem morrer de morte natural; e bem póde ser que sua alteza venha a acabar de doença reles, com pedra na bexiga, hydropica, com lombrigas, com grandes perturbações flatulentas no seu apparelho digestivo—uma desgraça para as letras.
Avaliando o clero portuguez, manda lêr o Crime do padre Amaro. Um romancista habil engenhou um padre mau que afoga um filho, uma perversidade estupida e quasi inverosimil em Portugal, onde os padres criam os afilhados paternalmente. Eis, segundo ella, o typo da clerezia portugueza, o padre Amaro. A snr.^a Rattazzi geme escandalisada sobre a corrupção do sacerdocio, e cita o romance.
Do clero naturalmente deriva para o culto. A respeito do S. Jorge da procissão de Corpus-Christi, a princeza espirra fagulhas de espirito forte, d'um voltairismo sediço, com um desplante extraordinario em mulher. Não se cohibe de gracejar com o symbolismo sempre respeitavel quando inculca, seja como fôr, uma religião e uma moral—cousas consubstanciaes. Não a retém a senhoril e prudente moderação de Staël e Sand, e sobretudo o feminil decoro de viuva duplicada, de mãi e de velha, embora os atavios façam pirraça á chronologia. Moteja das pompas religiosas no tom das turlupinades da petrolista André Léo, e arma á risada com facecias d'um alumno da escóla-militar que leu o Testamento de Jean Meslier e o Citador de Lebrun.
Moteja dos Cyrios. Segundo ella, os portuguezes, tomando a parte pelo todo, chamam ás «procissões» Cyrios, porque levam velas accesas. Muita chalaça a este respeito. Mulher irreligiosa é uma razão perdida no vacuo da consciencia; mas a que faz praça da sua incredulidade é cousa repugnante, tanto monta ouvil-a na sala como na taberna.
Se a snr.^a Rattazzi fosse uma escriptora seriamente critica, ridiculisando o maior santo de Inglaterra, devia contar aos portuguezes que Jorge foi um fornecedor de toucinho (bacon) do exercito romano, e que em vez de fornecer, cosia-se com os lardos suinos como qualquer fornecedor do exercito brazileiro do Paraguay. A justiça perseguiu-o como concussionario; Jorge safou-se, fez-se ariano, e levou d'assalto a cadeira archiepiscopal de Athanasio. Depois, na capital do Egypto, a execração publica encarcerou-o afim de o processar; mas o povo, impacientado com as delongas do processo, atirou-o ao mar. «Como é que este malandrim (pergunta Campbell na biographia de Shakspeare) chegou a ser transformado em S. Jorge, patrono dos exercitos, da arma de cavallaria e da ordem da Jarreteira?» Campbell diria á senhora princeza: «Patricia, antes de escarnecer as crenças portuguezas, zombe das inglezas. O santo é nosso, e Deus sabe que bestialidade grande praticaram os lusos admittindo um santo da Gran-Bretanha na vanguarda d'uma jolda de velhacos que lhes fizeram á industria da metropole e ás colonias d'Africa o que o tal Jorge fez ao toucinho dos soldados romanos».
Ora, se é facto que o sujeito sizava a carne de porco das legiões romanas, esse devia ser coherentemente o santo tutelar d'Inglaterra. Eu, porém, segundo a minha historia ecclesiastica, muito mais orthodoxa e correcta que a de Campbell, pendo a crêr que S. Jorge era um principe da Cappadocia que soffreu martyrio, imperando Diocleciano, depois de ter matado um certo crocodilo que queria comer a filha do rei Aja. Jorge levou talvez em vista, n'este crocodilicidio, plagiar Perseu que matou outra fera que queria comer Andromeda, filha do rei Cepheu. O que é certo é que os saxonios, estes selvagens, incapazes de produzir um santo, adoptaram o da Cappadocia. Nós é que não tinhamos necessidade do santo, dando-se o caso de mais a mais de sermos ridiculisados por causa d'elle no livro da snr.^a Rattazzi, princeza que de certo não vai ao florilegio como o seu collega principe Jorge.
Sobre materia intrincada de cultos, presume que o enigma poderia ser resolvido pelo bispo de Visens, Alves Martius. Este nome está bastante corrompido para se pensar que o prelado de Visens Martius é um bispo mosarabe, coevo do duque de Laf[oe]s, com diphthongo.
Deturpar nomes de bispos e duques pouco importa; é muito peor divulgar, ácerca das realengas aspirações d'uma duqueza benemerita de respeito, umas chocalhices cochichadas nas salas, mas nunca escoadas pelo esgôto da imprensa séria. Allude em termos esbandalhados de actriz patusca ao duque, marido d'essa duqueza, e attribue ás barrigas das senhoras portuguezas um exquisito predominio abdominal sobre os esposos. Esta senhora, que tem apenas a carne indispensavel para se não confundir com um fluido, abomina metaphoricamente os ventres grandes, as barrigas das damas portuguezas fidalgas que nobilitam nas suas membranas os maridos e os filhos. Pilherias de farceuse de goguette. Umas buffoneries de petit souper,—can-can de sobre-loja entre costureiras que bebem do fino e teem namoros nas cavalhariças do paço.
A snr.^a Rattazzi ri muito das superfetações cosmeticas e oleosas do conde de M. Valha-nos Deus! A snr.^a princeza, como objecto colorido, é ha muitos annos uma chromo-lithographia das obras do bibliophilo Jacob. Que Alphonse Karr me não deixe mentir.