Do duque de Saldanha repete anecdotas chinfrins que põem gargalhadas sobre a campa do bravo caudilho a quem D. Pedro IV agradeceu a corôa de sua filha. Conta um dialogo forte que elle teve em 1851, ás quatro horas da manhã, com a rainha D. Maria Pia, e que ella mostrára desejos de o mandar espingardear. Ora, em 1851, a senhora D. Maria Pia, o Anjo, tinha quatro annos, e desde que veio para o throno de Santa Isabel e de Santa Carlota Joaquina apenas tem espingardeado alguns borrachos, 4 em 5. E o duque de Saldanha—conta a princeza—apresentou-lhe a esposa no seu palacio d'ella em Antin. Assim zomba a snr.^a Rattazzi dos seus amigos mortos e matraquêa Saldanha que a visitava, quando o Figaro a escarnecia e Pelletan lhe desenhava o perfil na Nouvelle Babylone.
Está a caracter quando, annotando um artigo espirituoso do Pimpão, explica á Europa o que é o «Perna de pau» e a «Horta das tripas» (Jardin des tripes). Falla muito de faguêtes que a incommodam, e diz que Vm.^{cê} é o diminutivo de V. Exc.^a. Investigando a linguistica, observa que não dizemos o rei, mas el-rei; e que o el é recordação mourisca e vestigio da occupação dos arabes. Confunde o artigo hespanhol el (do latim ille) com o artigo arabico al, prefixo a muitas palavras portuguezas. As Therezas philosophas são muito mais vulgares que as Therezas philologas. Diz que o nosso ai Jesus! tambem é musulmano, e o se Deus quizer tambem é vestigio arabico. É uma mulher das arabias, ella!
Faz rir á custa dos archeiros que tocam o tambor á chamada. A snr.^a Rattazzi nasceu em Inglaterra onde hoje em dia se conservam usanças ridiculas, ratices que se avantajam muito á do archeiro que rufa a caixa. Exemplo: os dous manequins monstruosos chamados Gog e Magog que assistem á recepção do lord-maior no salão Guil-Hall. Depois, mais irrisorias que os archeiros, as sentinellas da Torre de Londres, chapéos de velludo emplumados, adaga á ilharga, farda escarlate acolchetando nas costas, e as armas de Inglaterra com a tenção de Henrique VIII matizadas no peito. E que nos diz a snr.^a Rattazzi ás cabelleiras Luiz XV, de cachos empoados, com que se toucam os juizes antes de se amezendrarem com offenbachiana parlapatice magestosa nas cadeiras da magistratura em Westminster-Hall? E aquelle sumptuoso coche tirado por cavallos baios em que se estadêa o carniceiro opulento, com os braços nús e a camisa arremangada até ás claviculas? Se a Gran-Bretanha nos não exhibisse estas gargalhadas, teriamos de nos remediarmos com o producto da ex-princeza Studolmire Wyse que só de per si tem a vis insita, a força ridicula latente das dynamisações altas.
Penetra na vida intima dos portuguezes, no segredo dos seus amores castos, amor que só os olhos exprimem. Não gosta. Acha isto semsaboria, e chama-lhe paixão è olhadas, para exprimir bem portuguezmente a cousa. Á Casa Havaneza, onde se refastelam muitos dos taes «apaixonados das olhadas», chama clubo des bavards. Diz que em Portugal as meninas de doze annos tem olhadas e carteiam-se. Acrescenta que é rara uma mulher galante portugueza; mas que os homens são, na generalidade, bonitos e bem feitos—beaux et bien faits. Isto captiva a gente. Contou alguem á princeza a historia fresca de um velho par do reino «que se lambia» dizendo a paixão que inspirára a uma joven que só á beira d'elle sentia o lyrismo e as delicias do amor. A snr.^a Rattazzi espantou-se, e do velho idiota inferiu que em Portugal todos os velhos se lambiam d'amor.
Foi aos touros; viu os capêlhas portuguezes, e os torreros e os forçados (forcados) que ella diz assim chamarem-se, forçados, porque forçam os applausos. Está em primeira mão esta sandice. (Se o leitor quizer corrigir a minha indelicadeza, onde está sandice leia sandwiche). Como successor do conde de Castello Melhor no garbo e destreza cavalleirosa de toureiro, menciona Rebello da Silva el Castro. Provavelmente do historiador da Ultima corrida de touros em Salvaterra fez um toureiro equestre no campo de Sant'Anna. Diz que, a pedido da commissão, offerecera uma «mona»—reminiscencia poetica da idade média. Achou na idade média as monas. Sua alteza acha um tanto canibal o prazer das touradas, mas nem por isso é moins immense (este immenso menor que o immenso maior, é bom). Nos theatros da Trinidade e do Principo, desagradou-lhe o pessimo costume de pateader. Diz que as obras do theatro de S. Carlos foram dirigidas por Santo Antonio da Cruz Sobral. Lá fóra ha de cuidar-se que temos um Santo Antonio de Lisboa para os milagres e outro Santo Antonio da Cruz para os theatros.
Sobre politica decifra alguns artigos bons do Pimpão e guiza varias beldroegas de sua lavra. Entra bem na questão financeira, na fiduciaria, dos Bancos, no escandalo das loterias e do jogo. Faz um moral opusculo em assumpto de rolêta.
Tratando de jornaes, traslada e traduz annuncios aphrodisiacos do Diario de Noticias, e diz que o snr. Thomaz Antunes é moco fidalgo. O snr. Antunes não é fidalgo moco; tem a cedilha: saiba-o a França. Do Jornal da Noite, escreve que A. A. Texero de Vasconcellos noticiava principalmente anniversarios e nascimentos, dava a lista dos numeros mais premiados na loteria, e d'isso ia vivendo. Assim atassalha a snr.^a Rattazzi a reputação jornalistica do mais rijo pulso athleta que teve a arêna dos gladiadores politicos—o rival de A. Rodrigues Sampaio. Nem A. Augusto era outra cousa. Logo veremos como ella conceitua socialmente o seu conviva e panegyrista.
Menciona como collaborador da Correspondencia de Portugal o snr. Rodrigues de Treitas. Se lhe chama Tretas ao illustrado e honesto republicano, merecia uma descompostura.
Tambem versa a questão cornigera dos gados, des bestiaux. Louva, ao intento, um Relatorio do snr. conselheiro Morres Soares. Morres? Longe vá o agouro. Desejo que o snr. Moraes Soares viva muitos annos, para nos dar muitos relatorios sobre bestiaux, e mais occasiões a que esta princeza se occupe das nossas vaccas—objecto em que é ella a unica senhora concorrente com as leiteiras saloias.
Em uma pagina util e talvez a unica proveitosa aos viajantes, informa ácerca dos hoteis. Diz que no «Hotel de Lisbonne» ha muitos ratos; no «Alliança» persevejos; e no «Gibraltar» baratos (não confundir preços baratos com «baratas», ou «carochas»). Depois d'esta asseveração impugnavel, esteia a sua affirmativa em uma passagem do Cousin Bazilio onde se lê que em Lisboa ha persevejos. Luxo escusado de erudição. Os persevejos em Lisboa são d'uma tamanha evidencia fetida e mathematica que se dispensava o testemunho do snr. Eca de Queroz, de Querioz, ou de Querioze, que vem citado como Plinio para os lacráos, e Livingstone para a Tsetse-fly, mosca mortifera da Africa.