«Persiste em não dizer nada de mim; e, se tenho algum outro favor a pedir-te, é que me não fales d'ella; antes me ajuda a esquece-la.

«Meu generoso pae ainda a tal respeito me não disse palavra. Adivinhou tudo. Tudo me tinha prophetisado em Londres, com estas palavras: Que direitos tens tu a uma felicidade que te custa humilhações? Para que a procuras afincadamente, se vaes de rastros apoz ella? Porque has de tu querer hombrear com os grandes, se eu apenas te fiz entrar n'uma carreira por onde levarias teus filhos á grandeza?

«Na ultima pergunta é que o propheta ouviu demasiadamente os seus arremessados desejos. Esta minha carreira é a da inhabilidade e da pobreza; mas cá estou a refazer-me de alentos para a trilhar. Adeus, meu extremoso amigo. Não acceito o teu alvitre de me fazer politico. Já vi o que isto é. Não estou ainda bastante pôdre para adubar o torrão em que braceja a arvore da immoralidade. Estou envergonhado de ter dado o meu sangue para isto! Ás vezes chego a scismar se Bartholo de Briteiros teria razão!

«Perdôa esta impia ironia. Antes isto que os patibulos. Cada qual enforca a sua honra á sua vontade, e não causa lastima nem espanto. Não ha tempo para mais. Adeus. Teu

Fernando

[XX]

DE HYPOLITO DE ALMEIDA A FERNANDO GOMES

Madrid, 3 de setembro de 1842.

«Meu Fernando, não espero a tua resposta para te escrever. Tenho só tempo de participar-te que Paulina entrou hoje n'um convento, contra a vontade do pae. O conde de Rohan suppõe que és tu a causa d'este successo. Bartholo suppõe que a filha se enclausurou para de lá requerer casamento comtigo. Elles e eu andamos litteralmente ás aranhas. Ella e tu sois os ferrolhos do mysterio. Sae a mala. Adeus.

Almeida.»