DO MESMO AO MESMO
Madrid, 12 de setembro de 1842.
«Viva Deus! que quebraste os sete cadeados do cofre! Vi o altissimo quilate do oiro da tua honra. Já o conhecia.
«Estas linhas deviam magoar-te; mas não justificam a fuga, e menos ainda o desprezo. Não é desprezo o que sentes por ella; mas, seja o que fôr os effeitos são analogos.
«Paulina, como já deves saber, vive no convento das Therezinhas. Consta-me, de informações exactas, que Paulina está n'um consternador abatimento de espirito. Raro se deixa vêr e apenas sáe da cella para receber, na grade, a visita do conde ou do pae. Eugenia entra no convento, e passa muitas horas com ella; mas nem assim lhe arranca o essencial motivo do rompimento e reclusão.
«Bartholo tem providenciado para o caso de haver deposito judicial. Realisa-se o que eu te havia dito. Sei que de antemão, e por hypothese, já estão alugados os juizes.
«Eugenia pediu-me hontem um encontro no Prado. Insistiu comigo para eu lhe descobrir a tua residencia. Inutil. Jura que Paulina te ama até se deixar morrer, para assim pelo remorso se vingar da tua ingratidão. Estive, sem receio de quebrantar minha palavra, quasi a mostrar-lhe a copia da pagina da ultima carta da irmã. Desisti, por me não parecer, ainda assim, justificavel o teu procedimento, e tambem para respeitar o sigillo de Paulina. Ella, que o reserva, lá tem suas razões, e nós as nossas.
«Aconselhar-te eu? não me atrevo a tanto. Já disse: contra certos destinos é impotente esta logica vulgar, vade-mecum de todos os homens vulgares. Escuta o teu coração, sem menos-preço da consciencia. Obriga a razão a obtemperar a certas e importantissimas pequenezas, que são o essencial da vida. Isto não é conselho: é supplica.
«Bartholo vive muito ha dias com um marquez gallego, que veio ao senado; riquissimo gallego, e descendente dos monarchas de Aragão. Presume o conde de Rohan, com o muito sal do seu espirito, que Paulina corre risco de ser encabeçada na côrte descabeçada de Aragão. Eugenia accrescenta a estas observações que Paulina só sairá do mosteiro, se a não deixarem lá sepultar na clausura. Isto parece-me extremamente grave, Fernando.
«Queres tu que eu ultrapasse as tuas ordens, ou prescrever-m'as novas? Custa-me a ser-te fiel entre as reiteradas insistencias do conde, de Eugenia, e da piedade a que indirectamente me compunge Paulina.