«Diz-me o que fazes: fala-me da tua familia. Teu sempre extremoso

H. de Almeida

Nenhuma outra carta nos veiu á mão.

Fernando Gomes, voltando do Porto com os creditos de seu pae liquidados, melhorou o pessoal dos operarios, e alargou o seu commercio, creando freguezias de lojas nas terras que percorreu. Em toda a parte encontrou condiscipulos, que se maravilharam de o verem agenciando os interesses d'uma loja de sapateiro. Deu isto em resultado que ninguem o visitou nas estalagens onde se aposentava.

Francisco Lourenço mostrava-se penalisado de vêr seu filho occupar-se em tal mister, tão incongruente com sua educação. Reconhecia a iniciativa melhoradora do estabelecimento; mas, ainda assim, pedia-lhe incessantemente que requeresse um emprego, allegando sua instrucção e serviços.

Fernando, submisso a seu pae, aos prantos da mãe, e meiguices das pobres irmãs, requereu, apresentou ao ministro seus papeis, foi tres vezes á audiencia geral do secretario de Estado, e esperou.

De vez em quando ia examinar o seu nome no livro da secretaria, e lia sempre: esperado.

Este esperado é regularmente o prologo do indeferido. Indeferiram-lhe o requerimento. O logar pedido na thesouraria fôra dado a um filho de regedor, que puzera ás ordens da situação oito votos e quatro cacetes, que valiam vinte e quatro votos.

Fernando leu o despacho no Diario do Governo, leu os commentarios n'um jornal da opposição, e riu-se.

Pegou na medalha de Torre e Espada, embrulhou-a n'um papel de mata-borrão, e enviou-a ao ministro, com esta carta: