«Excellentissimo. As honras a quem competem. Faça vossa excellencia presente d'isso ao meu feliz competidor. Ganhei essa coisa por ter suado sangue a favor d'esta causa em que o merito do cacete devia ser instaurado. O cacete venceu. Agora competem aos sacerdotes do pagode, que eu ajudei a erguer, as condecorações que nada prestam aos operarios inactivos. Eu, e o meu competidor, que ceifou o carvalho civico com o cacete paterno, o que fizemos foi derramar sangue de irmãos. Devemos hombrear nas honras. Ora, os arrependidos devem rejeita-las em favor dos contumazes. Deus guarde a vossa excellencia, como todos havemos mister, e de veras lh'o deseja o criado inutil de vossa excellencia, Fernando Gomes, com loja de sapateiro na calçada do Sacramento, n.º 11—Lisboa.»

O ministro recebeu a carta e o embrulho. Pensou em autoar o signatario; mas o official maior pediu licença para observar a sua excellencia que a carta não encerrava injuria pessoal nem collectiva, salvo aos caceteiros, por cuja honra não ficava airoso ao ministro saír. Assim acabou o episodio.

Fernando Gomes passou de agente exterior a fiscal da officina. Descia á loja, e examinava de perto a labutação; ajudava a encaixotar o calçado, e assignava, em nome de seu pae, a correspondencia com os freguezes. Os officiaes antigos respeitavam-n'o, dando-lhe sempre o epitheto de doutor. Ora o doutor um dia, alto e bom som, disse a todos os seus officiaes que se chamava Fernando.

Esta metamorphose divulgou-se, contada pelos operarios. É admiravel que ninguem lhe désse grande peso! Muitos doutores disseram: «se elle viu que não tinha geito para mais nada, fez bem em se fazer sapateiro, assim como dizem que o pae se queria transformar de sapateiro em poeta».

O mundo tem d'estes escarneos, que fazem vontade de perguntar ao Creador se está contente com a obra que fez.

Á força de muito observar, Fernando já sabia talhar umas botas como se fosse creado no officio. Diante, porém, do pae não ousava fazel-o, nem os officiaes ousavam dizel-o ao velho. Parecia a Francisco Lourenço que o trabalho de talha andava muito supprido, e elogiava a actividade do contra-mestre encarregado d'aquelle serviço. Elle, por si, o pobre cego, nada fazia já.

Fernando passava todas as noites em casa, ora contando á mãe e irmãs o que vira em suas viagens; ora lendo a seu pae os poetas relidos na infancia, e os livros de historia e viagens, que elle trouxera do estrangeiro. Estas leituras coavam calor de contentamento, a través dos setenta invernos de Francisco Lourenço, e embalavam o rebelde somno da mãe, que acabava por adormecer entre o seu rozario e uma descripção dos gelos polares por Cook.

Esta vida durou assim seis mezes. É de crer que n'este espaço se trocassem interessantes cartas entre Fernando e o secretario da legação. Como as não alcançámos, o que podemos conjecturar é que Paulina se conservou em Madrid esperando que o seu saudoso amigo, alguma hora, alli voltasse, conduzido pelo amor, ou pelo pezar de tão dura ingratidão. Não sabemos se o conde veiu a Portugal liquidar o patrimonio de sua mulher, como Almeida annunciára. Se veiu, é muito de suppôr que ninguem em Lisboa lhe désse noticias do chevalier Ferdinand Gomes, como elle euphonicamente o conhecia.

[XXI]

Estava um dia, 5 de janeiro de 1843, Fernando Gomes na loja da calçada do Sacramento, aviando uma carregação de fazenda para o Porto.