Antes de descer á loja, sua mãe, quando ia para a mesa do almoço, abraçou-se n'elle, e disse-lhe:
—Olha Fernando, tu não crês em sonhos, e eu creio!... Tive um sonho alegre!...
—Então sonhou que vendiamos algumas grozas de botas, minha mãe? Os nossos sonhos alegres não pódem ir mais além d'esta ambição de vender muito sapato.
—Bemdito seja o Senhor, que nos ajuda, filho!—disse a velhinha.—Desde que tu diriges a casa, parece que tudo levou volta! Olha que teu pae já disse que, se assim continuarmos um anno mais, havemos de resgatar os nossos bemzinhos do Cartaxo.
—Então sonhou, minha mãe, que estavamos outra vez proprietarios no Cartaxo?
—Não foi isso, Fernando... Sonhei mais alguma coisa... Sonhei que te via vestido de principe.
—De principe?! Ólé! de principe! Sabe o que deu causa a esse sonho?
—Que foi, meu filho?
—É porque hontem á noite estivemos a conversar a respeito do entrudo, que está á porta. A mãe adormeceu com a ideia do entrudo, e por isso sonhou que me via vestido de principe. Não foi outra coisa, minha querida mãesinha... Venha almoçar, que eu levo-a pelo braço, como em casa de Jeronymo Bonaparte levei uma vez a princeza Carolina.
—Valha-te nosso Senhor! não me deixas dizer o meu sonho até ao fim!—tornou ella, dando-lhe uma fagueira palmada na face esquerda.