—Pois o sonho estava no principio, minha mãe?
—Estava... Credo!
—Cuidei que o principe acabava principe. Querem ver que elle se fez sapateiro?
As irmãs riram; e o velho, abrindo os seus grandes olhos cataratosos, largou tambem uma casquinada de alegre riso.
Fernando temperou o chá de sua mãe, serviu o pae, e proseguiu:
—Ora agora, ninguem a interrompe, mãesinha. Exponha lá as suas alegres visões.
—Tu eras principe; ou estavas vestido de principe; mas, através do peitilho da farda, batido a ouro, via-se-te o coração. Quando tu assim estavas, começaste a chorar, porque descera do céo um anjo, e te levara o coração para Deus. N'isto appareces vestido de negro, muito pallido, menos no logar do rosto onde corriam as lagrimas, que brilhavam como diamantes. Quando assim estavas muito triste, e nós todos a chorar comtigo, torna a descer o anjo, e dá-te o coração, que te havia levado, dizendo-te umas palavras, que se me varreram da memoria. Eis se não quando, appareces vestido todo de resplendores de luz, com um semblante muito luminoso, e uma alegria, como a pintam no rosto dos bem-aventurados que adoram o Altissimo. Teu pae estava como absorto a olhar para ti, eu tambem, todos riamos e choravamos de felicidade, ao mesmo tempo, e n'este momento é que eu acordei.
—Alegre sonho, minha mãe! disse Fernando. O que eu agora queria era que vocemecê me explicasse o como se ha de converter em realidade esse bonito vestido de resplendores.
—Pergunta-o ao Senhor que me deu o sonho, filho, disse a mãe.
—O seu chá arrefece, tornou Fernando, eu faço-lhe outra chavena.