—Pois sim, meu querido filho; tem paciencia, que eu estou a tremer o queixo. A velhice parece que traz comsigo uma constante Siberia!
—Vejo que ainda se lembra das suas lições de geographia, que o pae lhe dava ha vinte annos, minha mãe. Ainda sabe que a Siberia é fria!
—Não, que tu cuidas que a velha ha de ser estupida por que é velha!...—disse ella risonha.—Olha que ainda ás vezes recordo os versos do nosso Bocage, e do nosso Francisco Dias Gomes. Este era do nosso sangue; o outro era do nosso coração, não era Francisco?
—Oh! se era! estou-o vendo, como se fosse hontem, quando elle, na mercearia, a S. Sebastião da Pedreira, me improvisou os versos com que eu te venci, minha ingrata! Amaste-me por não poderes amar o Bocage, não foi? Ora confessa a verdade, que eu agora já não tenho ciumes...
—Olha o tolo!—disse a senhora Maria Luciana, com a bocca cheia pelo bocado de pão, rebelde aos seus raros dentes.—Lá que os versinhos me encantaram, isso te juro eu que sim, Francisco... Não sei o que seria se me dissesses em prosa aquellas coisas... Tu eras tão acanhado quando ias lá a casa! Olha se te lembras que para me dares um raminho de violetas em dia de meus annos, andaste a pedir ao aprendiz, quinze dias antes, que m'o entregasse...
Fernando e as irmãs sorriam, sem quebra de respeito, d'estas amorosas reminiscencias dos dois velhos, que trocavam gracejos, que era um como prazer de lagrimas ouvi-los, de lagrimas, digo, para ouvintes que tivessem coração muito sensivel ás poucas coisas commoventes que tem a vida humana.
Findo o almoço desceu Fernando á loja, como já se disse começando este capitulo.
Acabára elle de dar saída aos caixões de embarque, e outras ordens, quando Hypolito de Almeida apeou d'uma carruagem, com as cortinas corridas por dentro das vidraças.
Fernando viu-o no limiar da loja, e correu a abraça-lo, exclamando:
—Que surpreza! Eu não te esperava, meu querido amigo! Subamos á saleta. Deixa-me ao menos tirar esta jaleca!