Almeida fitou os olhos no amigo do cêrco, de Coimbra, de Paris, de Madrid, e as lagrimas rebentaram-lhe a quatro.
—Isso que é?—disse Fernando.—Que tens tu, Almeida?
—Tenho a alegria, que precisa chorar como a dôr. A tua virtude causa-me uma vehemencia de respeito, de piedade, sensações tão estranhas e fortes, que me fazem isto que vês, estas não sei se primeiras lagrimas de minha vida. O que tu pudeste sobre ti, ó Fernando!
Os officiaes pararam de trabalhar, enleados n'este lance, e chorando sem comprehender o alcance do que viam.
—Subamos—repetiu Fernando commovido.—Vem dar um abraço em meu pae, em paga dos muitos abraços que tenho dado no teu.
—Pois sim, vamos—tartamudeou Almeida, n'uma irresolução.—Vamos... tambem quero vêr tua mãe...
Subiram, e os dois velhos vieram logo espontaneamente á saleta por ouvirem pronunciar o appellido Almeida.
—É o amigo do nosso Fernando—disse Francisco—vem d'ahi, Maria! vem abraça-lo.
Oh meu Deus! que magnificos lances preparam as vossas divinas leis! Quantas vezes, e quantos lances assim passam despercebidos na obscuridade onde vivem os vossos eleitos!
Os dois velhinhos acharam-se nos braços de Hypolito de Almeida, que sentiu em suas faces as lagrimas de ambos. Fernando, electrisado por aquelle instante da vida do céo, beijou a mão do amigo, por que elle assim respeitava e amava seus paes humildes.