—Expôr o relatorio, dizia eu, dos imperiosos acontecimentos que me constituiram na gloriosa obrigação de ser o mais ditoso dos casamenteiros. Permitte vossa excellencia?
—Se fôr sempre engraçado como começa, consinto, disse Paulina.
—Como hei de eu ser engraçado contando uma historia de lagrimas, minha senhora?
—Então não diga, não diga; eu contarei tudo ao meu Fernando. São poucas palavras, meu amigo; é uma só palavra... amava-te; mas o teu Almeida foi um barbaro! Sabia as minhas angustias, e deixava-me morrer. Mandei-lhe pedir do convento, tantas vezes, que me dissesse em que ponto da terra eu poderia encontrar-te!... Por fim calei-me, e esperei acabar alli, e deixar-te uma lembrança que havia de vingar-me... Não recordemos... não queiras que eu recorde o que soffri, até á hora em que me vi livre para te procurar... Aqui estou, Fernando... É a segunda vez que te procuro... D'esta vez não me deixes mais sair do abrigo da tua grande alma...
Não sei se o prolongar o colloquio d'estas felizes creaturas seria dar ao leitor um quinhão do contentamento d'aquella familia; o que certamente me dispensam, é preambular para chegarmos ao ponto do casamento.
Almeida, n'este mesmo dia, voltou com a licença do patriarcha para os esposorios se celebrarem logo, onde aprouvesse aos contrahentes, dentro do patriarchado.
Paulina quiz ser recebida na egreja onde fôra baptisada, e onde estava a sepultura de sua mãe. Do templo de Santa Izabel passaram a visitar, nas Amoreiras, o palacio onde Paulina tinha nascido.
—Pedia-te—disse ella a Fernando—que ficasses aqui, e a nossa familia toda. Vê tu como em vinte e quatro horas o nosso bom Almeida fez mobilar esta casa, ha nove annos deshabitada! Meu pae não consentiu nunca que vivesse alguem na casa onde minha mãe tinha morrido... Olha, Fernando, n'este quarto morreu ella e nasci eu!...
Desceram ao jardim. Lá estavam os canteiros, mas nenhuma flôr das que ella memorava com infantil saudade em Florença.
—Ellas renascerão!—disse Paulina.—Nós teremos as minhas flôres, Fernando! Serão os meus enfeites nos dias memoraveis de nossos prazeres e amarguras! Na felicidade deve ser tão doce recordar os gosos como as lagrimas...