Não sei se Fernando Gomes pensava n'isto quando via o senhor D. Miguel de Bragança, e um emigrado portuguez lhe dizia que o rei não tivera com que comprar leite para o almoço d'aquelle dia. O emigrado que estas miudezas referia era um major Pacheco, que seguira o seu soberano, espontaneamente, desde o embarque até Roma. Casualmente o encontrara Fernando por lá escondido nos pardieiros da Roma dos Cezares, ou meditando nas virtudes de Tito, ou nas cruezas de Nero. Qualquer das meditações frisariam como o infante desterrado, que uns chamavam-lhe Tito, e Nero outros, posto que elle não fosse uma nem outra cousa: era apenas uma creança, quando rei; e um instrumento cego em mãos de togados infames, de prelados devassos, e de fidalgos estupidos. Desde que o raio, forjado ao fogo da civilisação e na bigorna mysteriosa do tempo, o fulminou a elle e aos seus, o filho de Bragança ficou sendo um desgraçado digno de respeito, de commiseração, e de real parentella mais compassiva e generosa.
Ora vejam em que ladeira eu ia escorregando agora: Ahi está o meu pobre romance guindado a umas alturas de transcendental politica, d'onde se lhe não acudo, o coitado vinha abaixo estoirar n'alguma estrondosa parvoiçada! E tudo isto veio assim de seu natural. Por amor d'aquelle major Pacheco de Lobrigos que Fernando Gomes topou lá n'umas ruinas do Colyseu, ou cousa assim. E insisti n'este ponto, porque eu conheci em Villa Real, ahi por 1847, este major que voltara de Roma poucos mezes antes, e andava esmolando pelo Douro, com as suas barbas apostolicas, e grandes oculos de metal branco. Depois tornei a vel-o, estendido na estrada que conduz de Villa Real a Chaves, traspassado por duas espadas, e com a cabeça fendida até aos dentes. Fôra assim espedaçado pelas hostes do conde de Vinhaes, que mais acima mandou espingardear o general miguelista Mac-Donell, a cujas ordens andava o major Pacheco.
E como quer que este ancião assim espostejado, e sepultado no adro d'um presbyterio contiguo á estrada, deixasse uma filha linda e pura como um anjo, e esta filha enlouquecesse de dôr, escrevi eu n'estes tempos uma elegia em prosa muito dorida, a qual publiquei no Nacional do Porto. Em tão má hora dei a lume este testemunho de minha compaixão por os dois infelizes, que ambos jaziam mortos, e não sei qual d'elles mais cruelmente morto, em tão má hora digo, que se pude sair vivo das garras dos sicarios, mui pouco catholico sou em me não ter pesado a cera, e converter esta cera em cirios, e adornar com estes cirios o altar das liberdades patrias!
[IV]
Transferiu-se Fernando Gomes á Grecia. Estanceou com o seu Homero e Byron de um a outro padrão das fabulosas façanhas, historiadas em Thucidides e Plutarcho. Viu Grecia degenerada escrava, e de todo perdida para a resurreição da sua dignidade. Não teve um suspiro que lhe désse em hemistichio de ode, ou decima de hymno, como toda a gente faz quando carpe um povo cancellado do mappa das nações livres. «Nações livres!—dizia entre si Fernando Gomes.—Eu sei cá o que são livres! nem homens livres! Liberdade de morrer de fome, em toda a parte a ha, graças a Deus e ao progresso! Poemas ao trabalho e ao artista, em toda a parte se escrevem, graças á metrificação e aos especuladores ociosos, que deificam o suor e as mãos calosas, sentando-se em espaldares flacidos, e vedando o accesso de seus gabinetes aos operarios suados, calejados e sujos! Em toda a parte se mantem em nome da liberdade, e se chora em nome da servidão! Oh! meus pobres gregos, deixai-vos viver e morrer em vossa lethargia, que, se sacudires o torpôr de sobre o peito, virão depois uns próceres e éphoros, como os antigos, que vos hão de uns pôr o pé no peito desentorpecido, para subirem ao ponto donde vos atirem para baixo com muita injuria e muito desprezo da vossa ignobil raça de servos redimidos por elles!»
Assim devia falar comsigo e com os gregos o nosso viajante.
Mezes depois, temos Fernando em Paris, onde o senhorêa profundo fastio. Muito especial devia ser a compleição de moço de vinte e seis annos, que se anojava em Paris!
Passou á Allemanha, marinhou os pincaros da Suissa, e desceu outra vez á Italia, fatigado d'alma e corpo, triste como um desterrado, saudoso do seu Cartaxo, saudoso de paes e irmãs; porém sem forças com que aproar no rumo da patria.
Estava em Florença: restavam-lhe dois mezes dos dois annos concedidos. Releu Virgilio e Dante, Petrarcha e Tasso, os seus amigos de Italia, os seus guias e commensaes, as pallidas sombras que o seguiam até ás regiões convisinhas do sepulcro, ás tenebrosidades mysteriosas do sonho.