E hei de eu acreditar (diz a leitora que sabe o que vale) hei de eu acreditar que Fernando não encontrasse nos mais formosos pontos do globo as mais formosas creações do universo? Não viu elle uma ou cem mulheres... (cem senhoras, emendarei eu, se vossa excellencia permitte) ou cem senhoras que o tirassem pelos cabellos d'essa escuridade de alma em que o exquisito moço se engolfava com as pataratas dos Virgilios e Dantes, e outros que taes pesadelos de um espirito que almeja diffundir-se e embeber-se nas delicias da poesia, tres vezes santa, do bello ideal!?
Respondo: tem vossa excellencia razão de estar assim pasmada do homem: eu tambem, com quanto já saiba a preceito o que é pão bolorento por dentro e cordas de viola por fóra, começava a espantar-me, justamente no ponto em que vossa excellencia fez favor de interromper-me.
Não ha duvida nenhuma: a cousa é muito para assombros. Bravia é a arvore que aos vinte e seis annos não floresce nem fructifica! Anasada alma deve ser essa que se dispende toda em extasis de livros velhos e paredes velhas, e historias revelhas, que nem recontadas por Michelet ou Castilho se podem aturar. Com um homem assim o romance era impossivel. Quem houvesse de descreve-lo, iria na piugada d'elle por esse mundo fóra, onde ha plinthos e peristylos derrocados, e confundi-lo-ia com algum troço de columna corynthia ou jonica. Fernando seria empolgado pela caterva empedernida dos antiquarios, que dariam com elle n'este museu de Lisboa, onde não ha nada que o valha, a não ser o titulo do edificio, que é museu de si mesmo.
Estava eu, pois, a despenhar-me com o meu estylo espalmado na voragem dos escrevedores malditos da paciencia humana, quando, n'estes apontamentos que me dirigem, encontro o capitulo intitulado: primeira e ultima paixão de fernando gomes.
Primeira e ultima! exclamei. Não gosto d'isto! Com uma só paixão hei de eu encher duzentas paginas! Uma só paixão, n'estes nossos dias, em que vinte e quatro horas bastam para o prologo e o epilogo da tragedia, se é tragica a paixão!
Comecei a lêr desanimado; cobrei esperanças no segundo capitulo; ao terceiro obrigar-me-ia, sendo preciso, por escriptura, a escrever dois volumes; ao quarto fechei o manuscripto, e coordenei os apontamentos pelo theor seguinte:
Demorava em Florença uma familia portugueza, expatriada por affecta á realeza absoluta. Compunha-se esta familia de pae e duas filhas. O emigrado era um ex-desembargador do paço, ministro da Alçada, que assignara o accordão de pena ultima comminada aos academicos de Coimbra que, em 18 de março de 1828, mataram, no Cartaxinho, os lentes Matheus de Sousa Coutinho, Jeronymo Joaquim de Figueiredo, e feriram outros que, no dizer do accordão, iam beijar a mão ao serenissimo senhor infante regente pela sua feliz chegada a estes reinos.
Bartholo de Briteiros se chamava o realista. Uma das meninas era Eugenia, e a outra Paulina. Em quanto á linhagem, estude quem quizer a origem dos Briteiros, que ha de encontra-la desde logo que as aguas do diluvio universal se recolheram ao centro do globo, e consentiram que os casaes contidos na arca procreassem os Briteiros e outras familias do mesmo tamanho genealogico. No que toca a riqueza, dizia-se que Bartholo possuia, em cada provincia de Portugal, duas, e tres e mais quintas: o que eu não averiguei por me parecer desnecessario.
O emigrado vivia regaladamente na Praça do Dome, o mais vistoso local de Florença, servido de muitos creados, em palacio exornado de primosas alfaias e baixella. O vassallo de D. Miguel de Bragança pompeava faustos de rei, em quanto seu senhor, o tão chorado principe dos seus amigos, mendigava em Roma. Este contraste offerece um lado de muita philosophia, que eu me dispenso de explanar por ter muito amor a quem me lê, e me não lerá, se eu me entro a enredar em camisa de onze varas... (Cá em Portugal já se não diz varas: é metros: camisa de quinze metros e vinte e cinco centimetros, corresponde a isso; por causa da metromania não se ha de perder o anexim que é expressivo).
Escreve Méry a respeito de Florença: «Não me espanta que proscriptos e exilados, violentamente arrancados aos costumes de suas patrias, se lancem nos braços d'aquella Florença, que é mãe commum dos que padecem, e para todos se desentranha em palavras consoladoras...» E n'outro relanço das suas Noites de Italia: «Entende-se facilmente que homens e mulheres de alto porte, condemnados a exularem, pelo infortunio d'esta epocha tão atormentada, confluam a Florença de todos os pontos da Europa. O exilio aqui é menos penoso: não será paradoxo termos em conta de exilados todos os que vivem longe d'aquella cidade.»