Estava Fernando Gomes em Florença, conforme o seu costume em toda a parte, sequestrado de toda a convivencia, visitando antiguidades, lendo outras, e como que mumificando-se a si proprio entre tantas velharias.
Alguem disse a Fernando que o hospedeiro principe de Monfort mostrava aos seus visitadores a espada que Napoleão floreara na batalha de Marengo. Posto que o nosso portuguez presasse muito mais contemplar a lança de Leonidas ou o punhal de Bruto, não quiz perder o lanço de ver o sabre oriental do maior capitão do mundo, depois de Alexandre, e Cesar, dizia elle.
O princepe recebeu-o no gabinete, onde estava escrevendo as suas Memorias: mostrou-lhe a espada, facultou-lhe o exame dos tropheus d'armas, recolhidos n'um armario envidraçado; e bem assim as chaves de ouro da cidade de Breslaw, quaes o imperador lh'as dera, congratulando-o pela conquista d'aquella cidade.
Fernando, incitado a fallar pelo tom familiar do erudito principe, deu de seu saber muito boa conta sobre pontos de historia antiga, romana e grega, monumentos, batalhas, sciencias, e tudo quanto mereceria ser archivado em volumes grossos de soporiferas academias. O ex-rei de Westphalia deleitou-se em ouvi-lo, não sabendo ainda se era expatriado da Vandêa o cavalheiro que tão correctamente fallava lingua franceza.
Fallou de si Fernando em breves termos, dizendo-se portuguez, soldado da liberdade, o infimo dos seus fautores em Portugal. Accrescentou logo que deixara a liberdade do seu paiz, e saíra a procura-la n'outros pontos do mundo, a fim de compara-la com a que deixara na sua terra, rachitica, derrengada e aleijadinha.
Gostou o principe da grave sombra com que o douto moço mofava da liberdade dos portuguezes, (gente malquista sempre dos Bonapartes) e prolongou a palestra até horas de jantar. Fernando despediu-se já fatigado da convivencia: o filho do artista dava pouco pela gloria de conversar fito a fito com um ex-monarcha, irmão do heroe de Austerlitz, das Pyramides e de Friedland.
Dias decorridos, Fernando foi convidado, em nome do principe de Monfort, a passar a noite no palacio Orlandini. Cogitou o moço no mais urbano modo de esquivar-se ás pesadas honras de tão luzida sociedade. A educação acanhara-o; e os dissabores, suggeridos por causa de seu nascimento, eram-lhe um constante espinho a impellirem-no para longe de ajuntamentos. Assustava-o de mais o receio de encontrar portuguezes nos salões do principe, e ter de responder-lhe ás naturaes perguntas entre conterraneos que se encontram em paiz estrangeiro. Precisamente quereriam saber o seu nome, o nome de seu pae, as suas relações na patria, as mil coisas que se presumem sabidas de homens que viajam e se relacionam com principes. Todos estes barrancos lhe empeciam o caminho do palacio Orlandini, e nenhum expediente lhe suggeriram com que delicadamente recusasse o convite. Sacrificou-se ao dever de quem tinha sido tão affavelmente tratado por personagem assim venerada nos prestigios da magestade, a magestade dos heroismos, mais imponente que a do sceptro hereditario.
Antes da sua entrada no palacio, chegara Bartholo de Briteiros com as bellas meninas. Em quanto as duas portuguezas levadas pelas damas se gosavam da frescura da noite nos jardins, que muitas vezes serviam de salões, Jeronymo Bonaparte conversou com Briteiros largamente ácerca do moço portuguez que muito o encantara com a sua vasta erudição, e perguntou ao hospede se conhecia Fernando Gomes. O fidalgo franziu a testa, e disse:
—Não sei dizer a vossa alteza quem seja Fernando Gomes. Os Gomes em Portugal não sei quem sejam. Antigamente houveram os de bom toque; mas de D. João I para cá não acho menção d'elles nas chronicas. É appellido obscurecido, ou se perdeu.
—Póde ser que o seu patricio achasse o Gomes perdido!...—disse o principe com ar de riso.—O que eu sei é que o portuguez Fernando Gomes sabe muito, e entretem com assumptos, aborrecidos quando a gente os lê nos livros, ou nos monumentos. Gostei muito d'elle, e estimarei que a minha estima agrade ao seu patricio.