—Aqui está o seu patricio, minhas senhoras—disse elle, indicando a Fernando uma cadeira—conversem; espaireçam saudades da sua terra.

Retirou-se o apresentante, deixando o filho de Francisco Lourenço penosamente enleiado.

—Está ha muito em Florença?—perguntou Eugenia.

—Ha dois mezes, minha senhora.

—Lisboa é mais linda, não é?

—Lisboa é a patria; mas Florença é a perola do mundo—disse Fernando.—Não vi na Grecia vestigios de lá ter havido uma Florença; e, com tudo, a Grecia era a colmeia dos mais doces favos do mundo antigo. Aqui me parece que vejo resurgidas as delicias da Roma imperial, os jardins de Lucullo, os marmores jorrando espadanas de crystal, as thermas de Antonio, os...

Reteve-se Fernando. Reparou que o estavam escutando duas meninas, que, no ar do semblante, pareciam escutar idioma desconhecido. Que sabiam ellas de Lucullo e Antonio, as florinhas dos anjos, que da vida e mundo apenas conheciam o espaço perfumado de seus virginaes aromas? A ellas que se lhes dava de Florença, onde viviam tristes, com saudades do seu jardim de Lisboa, onde tinham cada uma seu canteiro, e em cada canteiro as plantas do seu amor? Seis annos havia que tinham deixado a patria, e ainda se diziam uma á outra: «Ainda veremos as nossas casinhas de murta? Já arrancariam as trepadeiras que se entrançavam em redor das janellas do nosso quarto?» O que ellas queriam era ouvir falar de Portugal, de Lisboa, do seu palacio, e talvez das suas flôres. Conheceria Fernando as flôres que ellas tinham?

—Tem muitas saudades de Portugal?—disse Fernando.

—Sempre...—respondeu Paulina.

—E quem priva seu pae de voltar á patria?