O principe chamou-o á sua beira, e segredou-lhe:

—Pois fugiu-lhes?! Não o entretiveram as patricias? Já sei o que foi: as pequenas não sabiam nada de Roma e Grecia... Mas lindas de véras, não? Qual lhe parece mais moldada pelos velhos typos da sua predilecta Grecia?—disse Jeronymo Bonaparte com jovialissimo rosto.

—São formosas como portuguezas—respondeu Fernando Gomes—mas em Londres seriam mediocremente graciosas. Os typos gregos eram menos correctos; todavia a fórma antiga, como a estatuaria a perpetuou, exprime os estupendos lances das tragedias que não se adivinham nas physionomias aperfeiçoadas pela lima das gerações. As cabeças de marmore parece que ainda fremem cheias de vulcões. O busto das Aspazias, Corinnas, Faustinas e Cleopatras dardejam fogo d'aquelles pedaços de Carrara e Paros. A mulher viril da esplendida antiguidade, conforme a civilisação a veiu entronando atravez dos seculos, mais e mais se foi amollentando em feminilidades. Ganhava em prestigio o que perdia em realeza de forças. A mulher esculpturada em Roma e Grecia, ainda amante e amada, incutia pavor aos seus sacerdotes; a mulher dos nossos tempos é uma creança que se quer acariciada e bajulada como se as graças da infancia lhe aquilatasse o merecimento.

—Parece-me porém—interrompeu o principe de Monfort—que as vantagens são a favor da mulher comtemporanea, da mulher mulher. Que entende o cavalheiro?... As suas patricias, a meu vêr, são perfeitas mulheres para se amarem sem inveja de gregas e romanas...

—Certamente.

—E saiba que teem sido pretendidas de grandes senhores da França, da Polonia, e da Italia. E o avarento pae não as cede ás mais remontadas stirpes nem aos mais abastados concorrentes. Fidalgo diz elle que o é dos mais antigos das Hespanhas; e, como o senhor Fernando sabe, o Creador ordenou, quando fez ou refez o globo, que a Hespanha ficasse sendo um estanque de fidalgos retemperados por sangue ostrogôdo, alano e suevo, sangue barbaro, que teve quatro mil annos a sua nobreza escondida nas florestas do norte... Advirto-o, meu amigo, d'esta avareza do senhor de Briteiros, que não vá succeder apaixonar-se o senhor por alguma das suas patricias!... Eu ficaria com eterno remorso de o ter apresentado, se o visse ámanhã a braços com um amor funesto!...

Fernando Gomes sorriu-se das graciosidades do principe, e saiu, pouco depois, do baile.

No restante d'aquella noite não viu Grecia nem Roma. Por sobre os vastos destroços, que compunham as necropolis da sua memoria, adejava um cherubim em nuvens de perfumes, era tudo primavera com seus devaneios; flôres e mocidade e verdura em tudo: de tudo tirava esperanças que lhe chamavam a alma ao futuro. O passado, então, pareceu-lhe melancholico: a poesia dos imperios pulverisados avultou-lhe como horrenda soledade; e o sol do dia seguinte encontrou-o ainda buscando no esplendor das suas visões o cherubim, que era, em todo o rigor da fidelidade, a imagem de Paulina Briteiros.

[VI]

Tinha expirado o prazo da viagem, estipulado por Fernando, e aceite por seu pae. No penultimo mez dos dois annos, recebeu o moço carta de Francisco Lourenço, instando por sua ida antes de concluido os dois annos, se possivel fosse. O artista dizia assim em sua carta: