«Está pactuado o casamento de tuas irmãs.
«Gracinda casa com um official de secretaria, rapaz de bom proceder, e familia honrada. Genoveva, não menos feliz, vae unir-se a um capitão de mar e guerra, homem já entrado na edade, mas muito estimavel, e muito do agrado d'ella. O prazer de nós todos seria que assistisses a esta festa, e enxugasses as lagrimas de teus velhos paes, quando as duas meninas, na mesma hora, se apartarem de nós! A estas dôres chama o mundo festas. O apartar-me de meus filhos quer o mundo que eu o festeje, como se approximasse mais de minha alma! Que tristeza será a d'esta casa se tu aqui não estiveres, filho! Que direi eu ás lagrimas de tua mãe, e ella ás minhas!... É preciso que nos ampares a ambos: aos teus braços é que ambos pediremos força para acceitar com resignação esta dôr obrigatoria, pela qual alguns paes recebem parabens! Não me detenho a pedir-te que venhas. Surda estaria a tua alma se não ouvisses os dois velhos que te estremecem...»
Eu podia escrever muitas paginas soberbas de hyperboles, umas minhas, e outras copiadas, para dizer quanto Fernando amava Paulina; porém, n'essas muitas paginas, seria tudo pouco para dizer tanto como n'esta linha: Fernando leu a carta de seu pae, e não sahiu de Florença. Isto vai sem ponto de admiração, porque eu, em materia d'amor, estou como Horacio a respeito de tudo mais: nihil mirari. Maiores desatinos que o de Fernando Gomes reclamam indulgencia das almas bem formadas, almas que não sejam raio de luz sem calor n'uma pouca de lama, ou humano barro, que dispara no mesmo.
Fernando mentiu a seu pae: disse que estava enfermo de febres, apanhadas em Roma nas lagôas pontinas. E mentiu sem vergonha de si mesmo! A celebrada honra de Epaminondas é a fabula mais paradoxal da antiguidade. Amasse elle uma Paulina, e estivesse em Florença, em Florença que, no dizer do author de André Chénier, «é como a Circe que maneata os forasteiros de invisiveis liames, e lhes dá continuada festa de musica, paisagens, perfumes, pompas e mulheres, a fim de incutir-lhes o esquecimento do seu paiz!...»
Fernando fugiu ás musicas e aos perfumes da magica cidade. O seu amor era taciturno e solitario, como um luto de saudade inconsolavel. Nascera em rebentações de fogo como as lavaredas da Sicilia. Estava debaixo do céo italiano; incubou-se d'aquelle fogo, bebeu a peçonha da immensa mansenilha, que braceja serpentes de mortal amor por todos aquelles remansos fataes de Genova, Piza, Veneza e Napoles. O céo esperara-o n'aquelle ponto para lhe emborcar d'um jorro todo o amor, que lá em cima é glorificação, e cá em baixo inferno. As flôres de sua alma desabrolharam das mil côres da esperança, e no viço de primeiras; mas logo amarelleceram. O formidavel «impossivel!» bateu-lhe na cabeça e peito, para que a razão e o coração morressem a um tempo. A razão morreu para não reagir. O coração vivia com centenares de cabeças como a hydra. O coração é a salamandra de seus proprios incendios; lacera-se, como o pelicano; de cada golpeada tira golfos de sangue, e n'este sangue medram esperanças, cada dia mais infernadas. Este é o amor maldito dos que amam, como amava Fernando a creatura divinisada por todos, isempta de todos, vigiada pelos olhos coruscantes do velho, que tinha coração de pae, com ferocidades de rei das selvas, velador dos seus leonculos.
Seria este imaginar impossiveis uma hallucinação do nosso homem? A gente mais sisuda e mais desbaratada em lidar com o mundo não lhe acontece tantas vezes fazer pé atraz, diante de travancos que uma borboleta transmonta a brincar por entre arbustos floridos? N'este artigo de mulheres, quantas vezes se nos figuram castellos roqueiros umas sobrancerias que lá ao pé se alhanam como relvados macios, planos, chãos, e todos desentranhados em boninas, que se estão como offerecendo ás solicitas abelhas, e até a zangãos damninhos!
Ora vamos ver se Fernando cae das alturas por onde se anda após do cherubim, e vem cá baixo á estrada coimbran, ao amor rameraneiro, de theor e modo que o estylo possa assingelar-se o necessario para ser bem entendido e estimado. Fuja todo o romancista de entender com personagens que trazem a cabeça de telhas acima: a nossa linguagem lusitana é pouco para exorbitancias taes. Os francezes dizem tudo o que querem, e até o que não ha, nem tem ideia correspondente. Os allemães tambem. Cá entre nós, boa gente do velho Portugal, gente que é toda vulgo nas paixões quotidianas, quem quizer remedar extrangeiros nublando os ares com fumaças de idealismo, despega em tolice tamanha, que não será assombroso fecharem-se-lhe as portas da academia real das sciencias, ou negar-se-lhe venera da ordem de S. Thiago da Espada! Não póde ir mais longe o menos preço dos parvos.
Paulina via todos os dias Fernando na piazza di Dome, sobre a qual se abriam as janellas dos seus aposentos. Chamava logo a irmã, clamando pressurosa:
—Vem vêr o nosso patricio, Eugenia!