—Eu não fujo de vossa excellencia—disse o moço côr de rosa, quanto rosas se alastram em rosto de homem trigueiro.

—Pois o senhor sabe—tornou Bartholo—que está um portuguez em Florença, portuguez dos bons tempos, e não o procura?!

—Vossa excellencia até hoje não me deu bastante afouteza para solicitar tamanha honra.

—Vá quando quizer. As minhas portas estão francas a quantos portuguezes, realistas ou não realistas, quizerem visitar um portuguez que honrou sua patria!—Ora o senhor, que saíu ha dois annos de Lisboa, ha de dizer-me se lá viu meninas mais galantes do que as minhas filhas!

Fernando córou outra vez, e tartamudeou; as meninas sorriram; e o pae insistiu na pergunta com certo desplante que não vae mal em velhos folgasãos, e até faz gosto ouvi-los n'estas liberdades, quando se fundam em muito amor ás filhas.

Fernando respondeu:

—Posto que eu conhecesse pouquissimo a sociedade de Lisboa, digo, sem receio de baixa lisonja, que as filhas de vossa excellencia seriam em Lisboa, como em toda a parte, bellezas distinctas.

—São a pintura da mãe—atalhou Bartholo.—Minha mulher foi a dama mais linda de Portugal. Deixou-me estes anjos para me ampararem. Se não fossem ellas, eu tinha-me atirado á cova que m'a roubou!

Assomaram subitamente lagrimas aos olhos do quinquagenario. Fernando hauriu prazer d'aquellas lagrimas. Porque? O moço queria presuppôr coração, sensibilidade e affectos brandos n'aquelle homem que lhe avultava de bronze á phantasia.

Passou Bartholo o lenço pelos olhos, e continuou: