—Depende o demorar-se da vontade de sua familia?—perguntou Eugenia.
—Já desobedeci á vontade de meus paes. Eu devia estar em Lisboa a esta hora... Estou em Florença, e Deus sabe onde o meu destino me chama...
Se Leopoldo Roberto houvesse sido menos explicito com a filha de Bartholo de Briteiros, o tom em que Fernando respondeu á pergunta de Eugenia bastaria a manifestal-o. O silencio de ambas, e a meiga expressão de Paulina foi tambem para elle sobeja prova de que o tinham comprehendido. Os dois corações, n'aquelle instante, esposaram-se em mysteriosas delicias. Tinham-se revelado tudo no magnetico relance d'olhos que se trocaram. Aquellas almas ou se haviam mentido, ou identificado para sempre. Nenhum d'elles assim o pensava. Nós, os que estamos de fóra, é que sabemos decidir d'estes vinculos eternos, e raro nos illudimos. Pena é que cada amante não traga á sua beira um observador, bastante martellado n'estas psycologias, para desde logo caminhar em terreno seguro, com a sibylla ao lado.
[A]Fernando visitou o fidalgo. O acolhimento foi excellente. As meninas reviveram quantas recordações ainda tinham de Lisboa. O antigo desembargador, com insolita moderação, relatou ao hospede a chronica mysteriosa de Portugal desde 1810, a revolução de Gomes Freire de Andrade, a de 1820, e as alternativas sequentes das duas parcialidades. Teve momentos lucidos de consciencia politica, e de admiravel modestia. Pelos modos, se em vez do conde da Barca, ou do conde de Basto, elle fosse o ministro valído de D. João VI, ou de D. Miguel, Portugal voltaria á sua idade de ouro. Para se exaltar era justo que desluzisse a reputação dos privados de D. Carlota Joaquina, e então foi verdadeiro. Deu como decidido ter sido envenenado D. João VI. Contou minudenciosamente a morte do marquez de Loulé em Salvaterra: chamou-lhe golpe de estado: mas a historia ha de chamar-lhe golpe de cajado, porque o palaciano foi morto a pauladas. Deteve-se por descuido a fallar dos supplicios de Lisboa, Porto e Extremoz. Eram tudo, no seu modo de ver, sacrificios necessarios á manutenção da ordem. E argumentava com a historia. O protestantismo, dizia elle, não entrou em Portugal: graças ás fogueiras da inquisição. Em quanto a Europa ardia em guerras religiosas, Portugal gosava pacificamente da sua prosperidade, e da pureza do seu catholicismo. D'estas sublimes paragens da historia portugueza, descia o apologista do fogo depurativo da fé a provar a necessidade da pena de morte como cauterio ás chagas sociaes, antes que ellas contaminem os membros sãos. Etc.
Fernando ouvia-o silencioso. No entanto as meninas, entretidas com os taboleiros floridos dos seus jardins, diziam entre si:
—E tu és capaz de lhe dar o ramo, Paulina?
—Era... mas... que hei de eu dizer-lhe? Ensina-me Eugenia.
—Eu sei cá!... não lhe digas nada... Quando o pae não vir, offerece-lhe
—O melhor era deitar o ramo no chapéo.
—Mas se elle o deixa ver ao papá?--redarguiu Eugenia.