[VIII]

Demoremos em Portugal algum espaço. A imaginação, que tem andado acorrentada aos apontamentos lá por essas terras lindas, mas alheias, já tem saudades das suas.

Cá estamos em Lisboa na calçada do Sacramento, em casa do artista Francisco Lourenço.

Estão os dois velhos á meza, onde o almoço lhes arrefece. Nenhum põe mão na comida. Encaram-se, e choram. Gracinda e Genoveva sahiram hontem para casa de seus maridos. Alli estão as cadeiras d'ellas, e sobre a meza as chavenas do almoço, e os guardanapos que lhes serviram dois dias antes.

—E sahiram sem lagrimas!—disse o artista, com a voz golpeada de soluços.

—Como eu saí de casa de meus paes para a tua...—respondeu a mulher.

—Mas que tristeza... que solidão esta, Maria!... Nem as filhas! Nem agora, Fernando... de mais a mais enfermo, tão longe de nós! Que fins de vida os nossos, mulher! Como eu de longe via isto tão differente! Falava-te no prazer de acabarmos entre filhos e netos! vê tu! ninguem, ninguem comnosco!

—Tem paciencia, homem, tem paciencia! Fernando ha de vir logo que esteja bom. As pequenas prometteram passar o domingo comnosco. Para a primavera, vamos todos para o Cartaxo. Não te afflijas, Francisco. Isto, assim triste e sósinho, é hoje. A gente afaz-se a tudo.

—Afaz-se á ingratidão dos filhos? interrompeu o artista.

—Ingratidão! Não é ingratidão! As meninas casaram com o teu consentimento: não foram ingratas.