—Sairam sem verter uma lagrima.
—Pois que queres tu? O Evangelho não diz: «deixarás pae e mãe»? Deixaram pae e mãe por seus maridos. É lei da natureza. Que havemos nós fazer-lhe? Almoça, Francisquinho, almoça.
—E tu que fazes? porque não almoças?
—Que queres tu! Não posso. Tenho um nó na garganta... Tambem eu... E Fernando longe de nós, Maria!... Que te diz o coração?
—Que não tarda ahi. Talvez já venha a caminho. Se vier, não temos carta para a semana. Se estiver ainda doente, escreve-nos. Depois nos lastimaremos homem... Não tentemos a Deus.
A carta, não desejada, chegou. Fernando dizia estar ainda doente, e não poder assignalar o tempo da sua volta. A linguagem era triste: dir-se-ia que a mentira lhe custava lagrimas. Os paes inferiram da tristeza a gravidade da doença. Francisco pensou em ir á Italia; porém, doia-lhe deixar sua mulher sósinha, doente de saudades, e mais lastimosa que elle. Esperou nova carta, contando os minutos por ancias, que o avelhentavam rapidamente. Ia, com sua mulher, buscar allivios a casa das filhas: encontrava uma e outra contentes, cuidando das suas occupações domesticas, cariciosas para os maridos, e levemente commovidas com as afflicções dos paes. A linguagem d'uma era a da outra:
—Não se inquietem, que o Fernando ha de vir. Póde ser que nem esteja doente. Anda por lá a divertir-se, e vem quando estiver farto.
Os velhos sahiam mais acabrunhados das frivolas consolações das filhas e genros.
Passadas semanas, chegou nova carta. Fernando, aconselhado pelos medicos, ia convalescer para Napoles; e, logo que estivesse restaurado, voltava para Portugal, immediatamente. Era o resumo da carta; mas o dizer era mais escuro; a espaços lhe tinham fugido uns desmentidos á falsidade. Taes como: Tenho desejado a morte: o futuro é negro, mais negro que a sepultura. E n'outro relanço: Eu nunca devia ter saido da nossa casa de campo. A má estrella não me acharia n'aquella obscuridade. E, finalmente, rematando a carta, dizia: Quem sabe se eu tornarei a ve-los, meu querido pae, e minha santa mãe?... Tenho presagios terriveis.... Era para muita pena vêr os dois velhos, cada um a seu lado, com o rosto entre as mãos, arrancando soluços e exclamações, que ninguem consolava!
—Que mal fizemos nós a Deus!—clamava Francisco. Não fui eu sempre bom filho, bom marido, e bom pae? A quem fiz eu mal voluntario d'este mundo? Quem se queixa de mim do céo para me ver assim, e te ver ahi, pobre mulher, sem consolação de tuas filhas? Que desgraças são estas de Fernando!—proseguia o artista, relendo a carta.—Na doença pouco falla: nunca me disse que doença tinha... Tenho desejado a morte; o futuro é negro, mais negro que a sepultura!... Vê tu estas palavras, Maria! Eu não lhe tenho faltado com as ordens do dinheiro muito a tempo. Já lhe escrevi, admirando e louvando que elle gastasse muito menos do que esperava. Tem tudo o que quer de mim, e ha de ter, se Deus me não transtornar a vida, meios abundantes para viver com decencia... Então por que se chora elle? que má estrella o persegue? porque não ha de tornar a ver-nos?