—A mim...—atalhou Maria—certo é que não... Pouco tenho de vida, Francisco...; mas olha, meu filho, sabes tu o que me lembrou agora de repente?...
—Dize, Maria...
—Estará Fernando por lá apaixonado? Queres tu vêr que elle olhou para alguma senhora, que o traz em torturas, e o pobre rapaz não tem coração que o tire de lá para fóra?
—A fallar a verdade—disse Francisco—a idade das paixões é a d'elle... Póde ser que adivinhasses mulher, e oxalá que sim... Se a paixão fôr bôa, o resultado bom ha de ser; se fôr má ou impropria d'elle, o tempo ha de cura-la... Mas isto não allivia a nossa dôr, Maria! Eu preciso de vêr Fernando; quero com a minha presença reduzi-lo aos seus deveres; não tenho meio de saber o que isto é, se não fôr em pessoa procura-lo. Deixas-me tu ir, mulher?
Maria deteve a resposta alguns segundos, expediu um gemido do fundo da alma, e murmurou:
—Vae, Francisco, vae, eu irei para casa de uma das filhas, se tu quizeres. Não te peço que me leves comtigo para te não dar que soffrer na viagem. Sinto-me muito doente. Vieram as afflicções juntas, e acabaram-me... Pois vae, e não te demores. Dize a Fernando que venha dar-me um abraço, que eu quero despedir-me d'elle; e, depois, que torne para onde estiver melhor.
Francisco Lourenço, sem mais preparativos que um passaporte e dinheiro, sahiu de Lisboa no primeiro navio que lhe deu passagem para porto de Italia.
[IX]
A gente não acaba de capacitar-se d'isto, diz o final do capitulo VII, a proposito dos anjos, que em pousando pé no mundo, perdem memoria do céo, e aclimam-se logo n'estes pantanos, cujas exhalações pestilenciaes teimam poetas em dizer que sobem a glorificar o Creador!
Vamos ao essencial.