«Vejo que essa cidade te prende mais que as outras; mas foi-te ingrata, filho. Tiveste saude em toda a parte, e só ahi adoeceste, dizendo-me tu que era um clima celestial o de Florença.
«Talvez te prendessem as memorias d'aquelle poeta que tu me lias, ha annos. Era Dante, se bem me lembro; mas eu queria que o teu coração de filho vencesse os prazeres do espirito; queria que os não esquecesses por amor da sciencia.
«Isto não são queixumes, Fernando, não são. É rabugice estar eu a ralhar comtigo porque a doença te impede de vir. O que eu te rogo, e mando, filho é que, assim que as forças t'o permittirem, venhas dar contentamento á tua boa mãe, que está muito acabadinha, e mais depressa irá ao seu fim, se desconfiar que nos esqueceste...»
A carta continuava assim por longo espaço de papel, manchado de lagrimas.
Fernando não tinha a força de alma que caracterisa os homens grandes. Estamos vezados a dar carta de grandeza a uns vermes que não teem lagrimas, nem se deixam alquebrar de vulgares contingencias da vida. O filho do artista depôz a carta, e murmurou:
—Meus queridos paes! como eu vos sacrifico sem saber a que!... Pude enganar-vos para me gosar das primicias de alguma desgraça!
E, respondendo a esta carta, escreveu aquella em que transluzia a muita acerba previdencia do seu futuro, com phrases incongruentes, e por virtude da qual Francisco Lourenço se fizera no caminho de Napoles.
[X]
O marquez de Tavira...
—Temos gente nova na historia?