—É verdade, leitor. Chegou agora mesmo de Roma e Florença o marquez de Tavira, aulico da côrte do proscripto, emigrado desde a convenção, do primeiro sangue de Portugal, sujeito de quarenta annos bem conservados, que parecem trinta, arruinado desde o seu setimo avô, mas ainda rico de umas riquezas inexauriveis de fidalgos portuguezes velhos—a gente de mais industria e artimanhas que eu conheço—não desfazendo nos fidalgos portuguezes novos, que estes, para se esquivarem á arguição de terem avós, avós arruinados, começam por não terem avós, e renegam os paes como logicos que são. Este periodo é de abafar!

O marquez de Tavira hospedou-se em casa de Bartholo de Briteiros. Não se viam desde 1832. Conheciam-se do paço, tratavam-se de tu, e tinham rapaziadas communs, posto que Bartholo se lhe avantajasse em onze annos.

Mania fôra sempre de Briteiros aparentar-se com Cogominhos de Tavira. O marquez dizia que seu avô falava no parentesco dos Briteiros da casa de Robordochão; e, dito isto, regularmente pedia a Bartholo dinheiro, e Bartholo dava dinheiro ao primo marquez, que era expansivo, quando embriagado; e embriagado nas orgias de Queluz, Salvaterra e Alfeite, costumava rir de Bartholo de Robordochão, que dava metal amarello a troco de sangue azul.

O marquez, desde a convenção em que largara a espada de coronel de artilheria, vagueara por França e Belgica, destroçando o restante do patrimonio vendido pelo terço do valor. Depois fôra a Allemanha em cata do senhor D. Miguel de Bragança; e, como encontrasse pobre o real exilado, invocou o seu inquebrantavel espirito e aproou para Florença, onde o chamava a pascacice do primo Bartholo de Briteiros.

O acolhimento frizou com as melhores esperanças.

O marquez teve logo, e muito rogado a possui-los, bellos aposentos, dinheiro a granel, optima convivencia de duas meninas, que o festejavam com franqueza de primas, e as melhores relações de Florença.

Este incídente coincidiu com aquellas tristezas e alegrias de Fernando Gomes, na manhã em que fechava uma carta para Paulina, e abria outra de seu pae.

Bartholo, sedento de noticias, enguliu quantas mirificas pêtas o marquez inventou, concernentes a restaurar D. Miguel no throno. No dizer do industrioso hospede, a Russia estava a disciplinar-se para talar a Europa, e passar o rôdo sobre as corôas usurpadas. O ex-ministro da Alçada, como bebesse mais alguns calices de champagne, no auge de sua alegria gosou-se de visões deliciosas, entre as quaes, se a conjectura me é fiel, avultavam uns triangulos do caes do Sodré, e umas lavaredas do Campo de Sant'Anna. Bartholo quiz pôr luminarias; mas o marquez dissuadiu-o d'uma virtude, que pareceria ridicula a olhos extranhos: a virtude das luminarias!

Passeava, ás seis horas da tarde d'aquelle dia, Fernando na praça do Dome. Paulina estava na janella. Passados momentos recolheu-se, e reappareceu com uma creada. Fernando comprehendeu, e avisinhou-se. Paulina apontou para o muro do jardim, e sahiu da janella.

Caminhou o moço, rente com a parede, e viu a creada debruçada no peitoril d'um caramanchão angular do jardim. Atirou-lhe a carta, e apanhou um bilhete que ella ao mesmo tempo deixara cahir, com uma saudade, flôr que, em parte alguma, tem o nome suave que portuguezes lhe dão.