Dizia o bilhete:
«Ámanhã vamos para Piza, onde temos de passar alguns dias. Vae comnosco o primo marquez de Tavira, que chegou hoje de Roma. Se não fosse o medo e os conselhos da mana Eugenia, pedia-lhe que se fizesse encontrado comnosco. Seria temeridade? Eu lerei muitas vezes a sua carta, sempre que puder fugir á vigilancia de meu pae. São tres dias: paciencia! Mando-lhe uma flôr, que me faz lembrar as da nossa patria... Ainda nos veremos lá, Fernando?...»
Seria temeridade? Este modo de perguntar, esta duvida em que Paulina ficava, teve Fernando na perplexidade de minutos em que o coração usa demorar as suas decisões. A ida do marquez com ella para Piza, o primo marquez, tres dias de ausencia com o primo marquez... Este primo marquez foi quem deu um empurrão em Fernando, pela porta fóra de Florença, caminho de Piza. Seria temeridade? seria; mas o contrario, o ficar, o estar tres dias sem ve-la ainda mesmo que o primo marquez não fosse, isso é que seria pusillanimidade, juizo de mais, excesso que mulheres amantes consideram coração de menos.
Fernando viu Bartholo e o marquez, com as duas meninas, entrarem na caleche. O de Tavira sentou-se em frente de Paulina. O filho do artista esperou que a locomotiva passasse rente por elle, e fitou o fidalgo, emquanto Paulina ia de rosto voltado para ve-lo. Seria já o ciume que lhe afuzilava nos olhos? O primo convencional dos Briteiros era, como já disse, um rapaz de quarenta annos, um gentil rapaz, quanto se póde se-lo, com um fardo de quasi meio seculo no espinhaço. As barbas intensas, nitidas, e negras, os longos cabellos á Saint-Simon, o porte soberbo, as fórmas fidalgas e significativas de destreza e força, as faces ainda rosadas, eram predicados de assustarem um amante de compleição doentia, poucas carnes, estatura mediana, ar e olhar timorato, e outros attributos de que os authores de novellas nunca revestem os personagens fataes, ditos leões.
Assim que a serpe do ciume o mordeu, não havia já consideração que lhe estorvasse o passo. Fernando partiu para Piza, curta jornada de algumas horas. Passou na piazza del Calvalieri, para esperar, n'aquelle centro da celebrada cidade, a passagem da familia. Em que monumentos iria elle procurar Paulina? Áquella hora, a illustre familia de Portugal estava em casa da opulenta ingleza Smith, cujo palacio nas margens do Arno abria seus salões na noite d'aquelle dia. A que parte iria o triste moço, mais triste na soledade da terra estranha, onde elle, como de si dizia Méry, se julgava, ao meio dia, o locatario unico de uma grande cidade? Foi ao Campo santo, vasto jazigo dos que morreram lidando na conquista do sepulcro de Jesus Christo. Seria aquelle o local mais ajustado á sua dôr? Os tristes sem consolação, como que refugiados da vida, se travam em mysticas confidencias com as cinzas dos que passaram seu dia chorando e, alli enxugaram as ultimas lagrimas no lençol humido da leiva.
Ao entrar no cemiterio, Fernando recordou as palavras d'um illustre viajante, que tambem lá fôra a recobrar-se de alentos para arcar com a desventura do seu curto dia:
«O Campo santo exhala poesia de morte, a poesia do nada, a poesia da immortalidade. Este é o verdadeiro cemiterio do christão: não se sente aqui a constricção d'alma que nos causa o tumulo do homem, suave e religiosa melancholia vae comvosco por entre as quatro galerias funebres, e vos inspira pensares de morte sem pavor. Este torrão não se desentranha em ossadas, nem o verme corroe as carnes: é terra milagrosa que preserva os corpos do insulto das herpes. Envolve-se em magnifico lençol de relvados floridos; inquadra-se em puras e graciosas ogivas do marmore alvissimo: é terra de Jerusalem sobre as galerias travadas; os cadaveres dos velhos christãos de Piza estão aqui santificados; é o leito de descanço dos homens fortes, que morreram em Deus, com a espada á ilharga e os rins ciliciados. Quão suave é este ciciar da relva que ressoa ao longo das galerias! Cuidaes ouvir psalmodia entoada por sombras, hymno de sepulcros escripto em linguagem, que, só depois da morte conheceremos.»
Mas não era cemiterio remanso ao soffrimento do moço. Ancias de coração não as suavisa a philosophia da morte. Aquillo serve para os que, n'outro ponto, deixaram fechada a sepultura de suas esperanças.
Passou arrastado o dia, sem que Fernando encontrasse vestigios de Paulina. Na manhã do seguinte dirigiu-se á praça onde se ergue a famosa torre torta, que o leitor tem visto pintada, e que o marquez de Tavira queria ver, mais que tudo. De feito, estavam o curioso emigrado e Bartholo e as meninas ao pé da maravilha, quando Fernando assombrou n'um angulo da praça.
Foi Paulina quem primeiro o viu, e trocou olhares de susto com Eugenia. Bartholo de Briteiros, que já muitas vezes admirara a inclinação mysteriosa da torre, estava mais attento nos palacios da praça, e, de relance, viu parado o portuguez.