—Que tens soffrido, marquez? Pois ainda agora m'o dizes!...—tornou Briteiros sinceramente inquieto.
—Devêra ter-t'o dito ha muitos dias, desde o segundo em que vi tua filha Paulina... basta.
—Homem! explica-te, se não eu obrigo-te a faze-lo por tua honra!
—Pois que assim o queres, sabe a verdade inteira, e reprehende-me se eu tiver procedido mais segundo os dictames do coração, que os da honra e parentesco. Eu amei tua filha Paulina com paixão. Se não t'o disse logo, foi porque me julguei superior a mim mesmo, e aos despotismos do amor. Muitas vezes em Portugal, em Paris, em Roma, em todas as capitaes da Europa, me julguei vencido por diversas mulheres que encontrei; e, logo depois de chorar a derrota, de repente me rehabilitava pelo esquecimento instantaneo e quasi prodigioso da mulher que horas antes me acorrentava aos seus mais levianos caprichos. Cuidei que o mesmo me aconteceria com tua filha Paulina: aqui é que o meu orgulho pagou amargamente as suas passadas sobrancerias. Verdadeira e insanavel paixão me inspirou Paulina; e, para cumulo de desgraça e vingança d'outras, tua filha, bem longe de amar-me, convencido me deixou de me aborrecer. Primeiro imaginei que Paulina não podia ou não queria amar alguem: isto podia ser; porque ha mulheres sem coração, e ha outras que parecem ter quatro: com os homens dá-se o mesmo caso. Porém, primo Briteiros, a razão do desamor de tua filha era a mais natural do mundo; é por que tua filha amava e ama outro homem.
—O que?!—interrompeu iracundo o fidalgo.—Minha filha ama outro homem! Calumnia! A minha Paulina não ama ninguem; e hade ser tua mulher, se eu quizer que ella seja tua mulher. Entendes tu, marquez?
—Perfeitamente entendi, primo; mas eu é que sou incapaz de permittir violencias, e acceitar esposa violentada. Outrem me julgue tal; mas tu não, Bartholo, que conheces a nossa familia, e sabes que meus avós deram para casa dos reis suas irmãs, e receberam como esposas as filhas dos reis.
—Bem sei, bem sei que foram esses os costumes da nossa familia; mas por isso mesmo é preciso que eu obrigue a minha filha a manter-se na dignidade de seus avós. Quem é o homem que ella ama?
—Pergunta-lh'o tu, primo. Se ella não t'o disser, consente que eu, por honra mesmo de nosso sangue, o não pronuncie.
—Que? pois ella ama algum mechanico? Responde por quem és, marquez! Depressa, que me sobe o sangue ao cerebro!
—Já te disse que ha grande deshonra em tal inclinação, primo... Não forces a minha repugnancia a revelar-te o que de mim mesmo eu quizera poder esconder.