Paulina lançou-se no braços da irmã, e exclamou:
—Oh! que infame é aquelle homem! que infame!... Que hei de eu fazer, Eugenia? diz-m'o por compaixão da tua pobre Paulina!
—Que has de tu fazer, filha?... Eu sei!... Soffrer como eu soffri, quando o pae nos tirou de Paris...
—Isso é que não!—replicou Paulina—Não me deixo assim esmagar! Fernando ha de ir tambem para Londres. Vou escrever-lhe e contar-lhe tudo... se o não puder ver, terei a coragem de soffrer e esperar, com a certeza de que elle está tambem em Londres... Pois que pensas tu?... Eu não posso esquecel-o, assim como tu esqueceste o francez, Eugenia! É porque tu o não amavas; se o amasses, a desesperação te daria forças! Tenho-as; sinto-me capaz de tudo!... O malvado!... á custa de que infamia elle queria fazer-me marqueza!...
—Eu logo te disse—atalhou Eugenia—que não fazias bem em falar com tanta soberba, quando elle te reprehendeu...
—Fiz muito bem! desenganei-o: está desenganado para sempre... Agora tudo que elle fizer são indignidades, e cada dia, e cada hora, hei de abominal-o mais.
Aqui tem a leitora bem significada Paulina n'este conhecido verso:
Ás vezes branca nuvem cospe um raio!
Quem diria que tamanhos vulcões de colera se escondiam no sereno peito da gentil creatura, que parecia talhada de molde para soffrer docilmente o martyrio! Ahi está o que faz o sol de Florença! Devem-se á Italia aquellas conflagrações! Em Portugal me quer parecer que Paulina não fosse aquillo. A minha espionagem de romancista nunca me alviçarou casos identicos de barreiras de Portugal a dentro. Por isso mesmo é que eu tenho de ir em cata dos meus personagens lá fora, para alternar, com lances de estremecer, as frias historias que tenho posto em livros de que ninguem se espanta, e que passam por as mais frias, insipidas, e inertes lucubrações do espirito humano. Esta agora, sim!
Paulina cortou o folego da imprecação para ir escrever a Fernando.