Poz em resumo o dialogo do pae com o marquez, e a resolução de ambos. Pedia-lhe que os seguisse para Londres, e averiguasse onde se alojavam. Asseverava-lhe que, á custa de tudo, se haviam de ver em Londres; e terminava, com a mais candida desenvoltura que póde ter uma menina, dizendo que, extremos de perseguição, ella fugiria para elle, e seria sua esposa.

Na tarde d'este dia Bartholo de Briteiros deitou-se a dormir a sesta: assim lh'o impoz o cauteloso espião. Fernando já tinha em si a carta e a resposta. Appareceu na praça do Dome, e Paulina no caramanchão. Poucas expressões se trocaram depois que Fernando atirou a carta.

A resposta era qual a delicada menina podia mais ambicionar. O amante sentia-se menos desditoso do que ella se imaginava. Para elle a afflicção de Paulina era extrema prova de amor. Antes a queria assim contrariada, e acrisolada ao fogo da oppressão. Incutia-lhe animo e esperanças. Promettia, mediante o auxilio do ministro em Londres, espiar os menores passos do marquez e de Bartholo. Se a não acoroçoava a fugir de seu pae, antevia, como primeira hora de sua felicidade sem nuvem, aquella em que Paulina se confiasse á sua honra. Do marquez dizia apenas que era inferior ao seu nojo, e lamentava que os grandes fidalgos andassem a competir em aviltamento com a mais infima ralé.

O marquez, escondido n'uma loja da praça, presenciava os passos de Fernando. O homem, que tanto preleccionara acerca da prudencia, não teve mão de si. O demonio da pobreza espicaçava-o! Era o demonio da pobreza que prevalecia ás furias do ciume. Saiu da loja, e veio ao meio da praça por onde Fernando caminhava com a altivez que dá a felicidade do coração.

Viu elle o marquez, e, a seu pesar, dardejou-lhe um olhar de desprezo, que parecia provocação. O neto de reis, se havia de ir ávante, e deixar o verme, parou, metteu as mãos nas algibeiras; e fez um tregeito de pernas, e assobiou umas toadas, que fariam as delicias de um faiante em pleno goso de seus tavernaes meneios.

Fernando sorriu-se, e caminhou.

—O senhor ri-se?—exclamou o marquez.

—Ri, sim, senhor—disse placidamente o filho de Francisco Lourenço.

—Que quer dizer o seu riso?!—replicou o fidalgo.

—Que vossa excellencia é uma pessoa irrisoria.