Francisco Lourenço era, n'aquelle tempo, rapaz de dezoito annos; mas, por sua muita esperteza e actividade, merecera que o pae lhe confiasse a gerencia da loja, grandemente afreguezada.

Os poetas notaveis do tempo calçavam todos de casa de Francisco Lourenço; um só, porém, o maioral de todos, o repentista Bocage, calçava gratuitamente.

Os coevos do poeta recordam-se de o terem visto quasi sempre mal entrajado de casacas, pantalonas e chapéos: mas, no tocante a botas, dizem todos que o vate Elmano primava em aceio, e raro dia saía á rua com ellas sem muito lustro de fina graxa.

Este accidente da vida de Bocage, omittido nas biographias do immortal improvisador, escriptas por Castilho e Rebello da Silva, tive eu a fortuna de apanha-lo casualmente. Assim, pois, se explica a distincção das botas de Manuel Maria entre as dos seus collegas e rivaes do botequim Nicola: Francisco Lourenço, o sapateiro dos casquilhos d'aquelle tempo, era amante de versos. Principiára saboreando as trovas chôchas de José Daniel; e ditosa correra a vida pedestre ao infausto poetrasto, em quanto a admiração do sapateiro lhe foi prodiga de botas; quando, porém, o moço ouviu Bocage improvisar na festividade de Corpus-Christi, fatal hora badalou para o auctor do Almocreve das Pêtas, que nunca mais encontrou graça no seu Mecenas de bezerro e sola.

O enthusiasta de poesia presenteou Bocage com umas botas, e a quitação de dois remontes que lhe devia. O poeta, não vezado a taes galhardias do vulgo profano, posto que a pouco mais subisse a capacidade do claro auditorio seu, retribuiu a generosidade do moço com prosa chan, mas muito mais sincera e cordeal que os versos.

Francisco tomou a cuidado seu mandar todas as manhãs buscar o calçado do poeta predilecto, e devolver-lh'o brunido e lustroso como um espelho; e, apenas as solas se gretavam ou os saltos iam entortando, logo novas botas, em fazenda e feitios primorosas, iam saudar o vate acordado para um novo dia dos seus desvairados prazeres de praças e tavernas.

A repetição d'estes brindes abriu, no animo generoso e popular do poeta, as portas á confiança timida do artista. Francisco Lourenço teve a honra de almoçar com Bocage no botequim das Parras, e d'aqui sairam juntos a jantar n'uma horta do Campo-Grande, onde Elmano, fiel aos seus usos e costumes, bebeu á tripa fôrra, e poetou, consoante o auditorio lhe beliscou a musa escandecida.

O sapateiro, instigado por sua doce embriaguez, que era suave e honrada embriaguez do amor casto a uma prima, revelou ao poeta a sua paixão, e pediu-lhe umas quadras natalicias para festejar os annos da sua amada. Esta confidencia rebentou do coração do moço alli pelas alturas de S. Sebastião da Pedreira. Bocage, sem mais averiguações, entrou n'uma tenda, pediu papel, disse a Francisco Lourenço que escrevesse, e improvisou torrentes de quadras que extravasaram da folha de papel almaço. O sapateiro amante chorava de alegria; e o especieiro ficou pasmado e maravilhado de ter tido em sua loja o famoso poeta, que era o esfarrapado idolo do povo, como todos os idolos do povo, que assim os quer esfarrapados, ou tarde ou cedo os esfarrapa, se elles lhe cáem nas mãos bem ageitados.

Francisco Lourenço, ao despedir-se do poeta, que ia passar a noite em casa do marquez de Anjeja, delicadamente lhe introduziu na algibeira do collete uma peça. Que bizarria de animo! Uma peça seria hoje o primeiro dinheiro que um editor portuguez offereceria a Bocage pela propriedade de um volume!

Bem empregados seis mil e quatrocentos réis! A prima de Francisco, ao ver-se cantada assim, e, de Maria que era, transformada em Marilia, ganhou ao primo tamanho amor, que logo d'ali esqueceu sagradas promessas, que fizera a outro; e tanto foi, que, estando ella a bordar um coração varado por duas settas em cruz, com o intento de mandal-o ao rival de Francisco, o symbolico lencinho, dias depois, estava em poder do primo, que o beijava em transporte de jubilo.