Bocage via a seus pés o mais ditoso dos amantes confessando que aos seus versos devia a immensa felicidade, que lhe não cabia no peito. Esta situação, grata ao genio, reaccendeu-lhe o estro em novas flammas. Um soneto divino caiu no coração do reconhecido moço, que foi logo d'ahi leva-lo ao coração de Marilia.

Esta menina era filha de um colchoeiro da rua Augusta, filha unica, e esperançada em bom patrimonio—que seu pae, tio materno de Francisco Lourenço, passava por abastado. Além d'isso Maria Luciana era galantinha, arranjadeira de casa, prendada, e amiga de ler livros de devoção, e o Almocreve das Pêtas, e o Anatomico jocoso, obras do engenho humano, que o bom do colchoeiro pasmava de ouvir, e, com as mãos nas ilhargas, era todo elle então uma risada, que não ha conta-lo.

Depois, porém, que Maria Luciana lera os dois poemas de Bocage, que lhe diziam respeito, o seu poeta valido era o grande cantor, e os livros ao divino pareciam-lhe coisa de moer a paciencia. A reformada creatura, quando a mãe lhe tirava das mãos as rimas de Bocage, e a obrigava a lêr o Retiro espiritual e a Novena de Santa Ursula, zangava-se tanto lá no seu interior, que chegava a duvidar que Santa Ursula e sua mãe tivessem senso-commum!

Não desagradava ao colchoeiro o sobrinho. Seu cunhado, além da acreditada loja na calçada do Sacramento, possuia no Cartaxo uma quintinha de recreio e algumas terras lavradias, e vinhedos herdados e adquiridos pelo officio. O rapaz desempenhava, em annos verdes, o bom governo da loja, e mostrava tendencias a ganhar freguezia de gente limpa, com quem elle se relacionava. Porém, estas boas predisposições eram rijamente contrariadas pela funesta noticia, que lhe chegara aos ouvidos, e vinha a ser: o escandalo de ter ido o moço algumas vezes almoçar ao botequim das Parras, em companhia de poetas! Esta reluctancia durou dois annos, ou mais; mas, a final, como quer que Maria perdesse a saude e amarellasse, o colchoeiro, que não tinha outra filha, deixou-a casar, dotando-a com seis mil cruzados.

No fausto dia do casamanto, Francisco Lourenço foi convidar Bocage para jantar em sua casa. O poeta estava enfermo; prometteu ir n'outro dia, se não morresse d'aquella aneurisma que o tinha nos umbraes da eternidade. As portas da eternidade, porém, estavam a abrir-se, n'aquella hora, ao mais inspirado e desditoso genio que ainda viram portuguezes, sendo tantos os inspirados e desditosos á competencia de desgraça com elle!

Poucos dias depois, n'esse anno de 1806, morreu Bocage.

Francisco Lourenço chorou-o, como se ás lavaredas d'aquelle incendio d'alma tambem elle tivesse aquecido os embriões do seu talento. O artista não era poeta, nem tinha o parvulez de crer-se tal porque adorava Bocage. O que elle tinha era a paixão do bello, com a entranhada magua de não ter sido educado e guiado por aquelle rumo de magestosa desgraça. Bem sabia elle que Luiz de Camões morrera sem lençol em que amortalhar-se, e Antonio José da Silva n'uma fogueira, e Maximiano Torres nos presidios da Trafaria, e Garção na cadeia, e Quita na indigencia, e Bocage no desamparo. Sabia-o, e invejava a brilhante desdita de taes destinos, ao passo que os grandes de entendimento rojavam aos pés dos grandes da fortuna seu ignobil servilismo para não emparelharem na invejavel miseria com os Camões e os Bocages.

Quando acontecia Francisco Lourenço dar largas a sua candida alma, lamentando o mau fim dos grandes espiritos em Portugal, os freguezes, que o ouviam, disfructavam-n'o, como hoje se diz, e iam chancear á custa do sincero artista. A voga, que lavrou da sua mania lamuriante, grangeou-lhe freguezia. Os peraltas e piza-verdes iam, acintemente, ás chusmas tomar medidas de botas, buscando azo de o moverem á costumada dissertação. Muitos o ouviam discorrer tão de sizo em tal materia, que saiam mais commovidos que dispostos a motejarem a louvavel sensibilidade do moço. Aos mais intimos ou mais velhacos recitava elle as quadras natalicias, que Barbosa du Bocage improvisara em S. Sebastião da Pedreira, e o soneto posterior, ao qual o coração de sua mulher de todo em todo se rendera. Estes eram os que divulgavam, como ridicula, a confidencia do sapateiro; e nunca lhe perdoaram ter elle na sua sala, impressa em pergaminho, e encaixilhada em retabulo dourado, a estrophe do epicedio a Elmano, por Francisco Manuel do Nascimento, que dizia assim em linguagem de anjos:

«Elmano! oh! vate! A abelha em teu moimento,
Sempre o seu mel componha!
Manná dos céos, e balsamos da Arabia
Alli distillem; louros enverdeçam,
Heras, nevados lirios!
Basto rosal, com mil botões o abrace!
Mangerona, tomilho e a flôr vermelha
Que annuncia em queixumes
De Ajax a dôr, n'um ai tinto em seu seio!
Do Sado as Nymphas, nymphas do aureo Tejo
E as indicas Nereas
Com lagrimas a campa lhe humedeçam!»
............................................

Francisco Lourenço recitava com lagrimoso enthusiasmo estes versos, e como thema os tomava para maldizer a nação e o governo que deixavam morrer de fome de pão e da patria o auctor de tão doridos queixumes, o exilado Filinto Elysio. E d'isso riam os casquilhos, os miseraveis cujo nome ninguem sabe, e cujos netos a gente não conhece, quando os topa ahi por esse Chiado e Rocio, cascalhando, com seus avós, umas risadas alvares, unico symptoma de vida intellectual que dispensam n'esta sua pasagem sobre o globo, que é d'elles e das moscas.