O pae de Francisco Lourenço afez-se a ouvir o filho fallar de poetas, e achava-lhe razão. Ouvia-o queixar-se da nenhuma educação litteraria que tivera, e sentia sinceramente não ter aproveitado as tendencias de Francisco. Dizia elle:

—Olha, rapaz, eu tinha um parente, que ia muito bem com a sua vida, em quanto olhou pela loja de mercearia que seus paes lhe deixaram. Depois assentou o pobre Francisco Dias Gomes em se fazer poeta, e deixou ir o negocio pela agua abaixo, a ponto de deixar para ahi a familia pobre. As obras d'elle andam impressas por esse mundo á custa da academia; mas isso não remedeia, em quanto a mim, a pobreza da familia. Ora eu, como tinha este exemplo na familia, resisti á tua e á minha inclinação. Achei que o melhor era dar-te o officio que me deu a mim muito trabalho com bom estipendio, e vida socegada. Já agora, Francisco, o remedio é conformares-te com a tua sorte. Se gostas de ler, lê, que eu não te levo isso a mal; mas bom será que olhes sempre para o essencial, que é a loja. Deixa-te de acamaradar com gente de outra laia, que a final ha de dar-te mau pago. Trago cá as minhas desconfianças de que muitas pessoas veem aqui fallar comtigo em poesias, e vão lá para fóra zombar de ti. Eu, que t'o digo, é por que alguem m'o disse. Lê os teus livros no teu quarto; mas na loja, se alguem te fallar em versos, fala-lhe tu em botas. Cada qual no seu officio. Ora agora, como estás casado e pódes ter filhos, farás o que melhor entenderes: educa-os como quizeres, que eu, graças a Deus, hei de deixar-vos o necessario para fechardes a loja, e cuidar n'outro modo de vida.

Desde este dia Francisco Lourenço comediu-se nas palestras litterarias. Os disfructadores deram tento da reforma, e foram rareando a pouco e pouco. Se o provocavam a discorrer sobre Camões, Bocage ou Filinto, o ajuizado Francisco lançava mão da craveira, e dizia:

—Já não conheço de versos; agora o que sei é medir pontos de pés.

—Spondeus ou dactilos? atalhou um faceto de mais presumido chiste.

—Pés de toda a casta, replicou Francisco, pés mesmo dos que são a quatro em cada sujeito, como posso provar a vossa senhoria.

O farçola entendeu que o sapateiro lhe chamava quadrupede: suspeita bem cabida, mas não cabalmente averiguada.

O certo é que este freguez deixou de o ser de Francisco Lourenço; e outros de sua roda se afastaram tambem, visto que o mestre se esquivava a ser pasto de seus ocios.

Que selvagens tempos aquelles!

Francisco Lourenço, se vem cincoenta annos depois, sem embargo de ser um habil sapateiro, poderia entrar dignamente na republica das lettras: começaria versejando, em solteiro, estas faceis quadrinhas, cheias de fogo e alma, com que todos os marechaes das lettras velaram as armas, ao vestirem-se cavalleiros para a crusada da civilisação. Depois escreveria o seu folhetim, variado em côres, como um mosaico de differentes linguas, e com atrevimento de idéas, que forçariam a critica a qualifical-as de originalidades. Francisco Lourenço teria uma luneta, um charuto, e um bigode encerado, e uma esquina alli no largo de Camões onde encostar os hombros, vergados sob o peso da cabeça prenhe de idéas. Depois, naufragado o coração, Francisco Lourenço iria salvar a humanidade, com o seu septicismo, nas regiões da politica. Faria, portanto, a um tempo botas para os pés, e sciencia para a cabeça da humanidade. Se absurdos fados o bafejassem, Francisco Lourenço subiria a ministro, e ninguem lhe perguntaria d'onde veio, nem a tripeça ainda quente lhe seria desdouro. Esta é a unica vantagem que a civilisação tem trazido para a fusão dos homens n'um só principio derivativo do pae commum. Cá, tanto faz vêr do acume das grandezas cair um homem no raso da lama, como erguer-se da lama um homem ao mais culminante da escala social. Ninguem se espanta, nem sequer pára a discutir estes vulgares accidentes da reformação social.