—Não póde ser depois, Fernando... Que faço eu aqui?! Não vim vêr Londres; vim procurar-te, vim chamar-te. Se me não seguires, que faço eu longe de tua mãe, que a esta hora mal sabe que voltas tenho dado... Era melhor que me não dissesses que ias para Napoles: poupavas-me tanto desgosto e fadiga!... Bem vês que estou muito velho... Não me deixaste assim... Em tres annos ninguem envelhece tanto...

—Perdão, meu pae!—exclamou Fernando, apertando contra o seio as cans do velho lagrimoso.

—Tanto chorar, na minha edade, é sorte de poucos... Vejo tantos paes, com os meus annos, em socego, á espera da morte, rodeados de seus filhos, fartos e ricos do fructo dos trabalhos d'elles...

—Tem razão...—atalhou Fernando—mas esses são os paes que teem filhos menos desgraçados que eu! Eu queria contar-lhe a minha vida... uma só palavra a explica... é uma paixão, meu pae, que me deshonrou aos seus olhos; por amor d'uma mulher lhe menti, e me envileci em minha propria consciencia...

—Não estás deshonrado aos meus olhos, Fernando... Desgraçado é que me pareces, filho... Não me contes a tua vida, que a sei. Lá deixaste em Florença as tuas memorias... Isso mesmo por que m'o não disseste? Antes isso que o engano. Eu não me espantaria que deixasses pae e mãe por uma mulher. Tuas irmãs tinham sido criadas no regaço de tua mãe, e fizeram o mesmo... Deixaram-nos sósinhos. Mas poderás tu dizer-me que futuro é o teu? que tencionas fazer? Bartholo de Briteiros, esse mau homem, que tem uma historia escripta com sangue, foge-te com a filha para Londres. Que vens tu aqui fazer? Queres tirar-lh'a?

—Não, meu pae; quero vel-a, unicamente vel-a; porque no dia em que perder a esperança de a tornar a vêr, hei de matar-me para esquecel-a...

Fernando escondeu o rosto no seio do pae, e exclamou:

—Deixe-me chorar, que são as primeiras lagrimas. Não houve coração algum que m'as recebesse...

E soluçava convulsivamente nos braços do velho, que o apertava ao peito com tremuras de compaixão e amor.

—Diz-me tu, filho...—tornou com muita brandura Francisco Lourenço—essa senhora despreza-te?